Das periferias para as políticas públicas: palestra debate geração cidadã de dados na Amazônia, na programação do Minicurso EGI

Atividade discutiu como comunidades podem produzir informações sobre seus próprios territórios e fortalecer sua participação nas decisões públicas.

A produção de dados pelas próprias comunidades pode ser uma ferramenta para ampliar a participação cidadã e dar visibilidade a realidades frequentemente ignoradas pelas estatísticas oficiais. Esse foi um dos temas discutidos pela comunicadora popular e estudante de psicologia, Paulie Amaral, integrante da Na Cuia Associação Cultural, durante a palestra “Geração cidadã de dados nas periferias da Amazônia”. A palestra fez parte da programação do Minicurso EGI – Belém: Reflexões sobre internet e territórios a partir das Amazônias, na capital paraense — que ocorreu nos dias 22 e 23 de maio no Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), realizado pela Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas (CTP), em parceria com Centro de Referência e Capacitação em Governança da Internet do Nic.BR.

 

O que é geração cidadã de dados?

Para abrir os debates, Paulie Amaral propôs uma dinâmica de apresentação entre os participantes. Cada pessoa foi convidada a compartilhar seu nome e pronomes, o território de onde vinha, algo que gostava de fazer e temas que costumava debater ou que despertavam seu interesse. A atividade serviu como ponto de partida para a discussão sobre como experiências individuais e coletivas podem se transformar em conhecimento sobre os territórios.

 

Após a atividade, a comunicadora apresentou o conceito de geração cidadã de dados como um processo de coleta feito de maneira coletiva, que tenha uma função ativista e objetiva, em formato aberto e público, em que os usuários estejam conscientes do propósito dos dados. Sendo uma alternativa para moradores, coletivos e organizações comunitárias produzirem informações sobre seus territórios, contribuindo para a construção de diagnósticos mais próximos da realidade local. Na Amazônia, onde muitas comunidades permanecem sub-representadas em levantamentos oficiais, a produção comunitária de dados surge como uma alternativa para registrar demandas relacionadas à mobilidade, conectividade, acesso a serviços públicos e questões ambientais.

 

Para Paulie Amaral, essa geração cidadã de dados nas periferias amazônicas vai além da coleta de informações por meio de ferramentas tecnológicas. O conhecimento produzido a partir das experiências cotidianas de moradores de áreas urbanas periféricas, comunidades tradicionais, agricultoras e insulares constitui uma fonte valiosa de dados sobre mudanças climáticas e acesso a direitos básicos. Segundo ela, estes territórios ocupam a linha de frente dos impactos socioambientais e, por isso, acumulam percepções e estratégias de adaptação que dificilmente aparecem em levantamentos convencionais.

 

“Eu acredito que as periferias são muito potentes na geração cidadã de dados, principalmente de informação climática e de direitos humanos como um todo. As periferias amazônicas vivem, na primeira linha, as mudanças climáticas, os processos de emergência climática. Então, é muito diferente falar sobre isso de alguém que vive todo dia a mudança do clima e há muito mais tempo do que aquela que está chegando, por exemplo, no centro, nas pessoas que não tinham contato com isso antes. Eu penso que falar sobre isso com essas pessoas também é geração cidadã de dados, porque elas vão te dar informações muito ricas do próprio cotidiano e da vivência delas e de como elas têm táticas para se adaptar a essa realidade. Aí a gente entra e fala de adaptação climática. E também em relação aos próprios conceitos de acessos a direitos básicos, como de saúde pública e saneamento básico. E dá para produzir a partir da própria vivência nesses dados.”, explica a comunicadora popular.

 

Paulie Amaral, comunicadora popular, estudante de psicologia e integrante da Na Cuia Associação Cultural. Foto: Lírio Moraes.

 

Não há dúvidas de que as periferias amazônicas produzem informações valiosas sobre seus territórios, porém, o caminho para que esses dados influenciem políticas públicas ainda encontra obstáculos. Segundo Paulie, além da necessidade de reconhecimento por parte das instituições públicas, os processos de validação e utilização desses dados continuam fortemente vinculados a modelos acadêmicos e burocráticos.

 

“Os principais desafios são, primeiro: as instituições públicas entenderem que esses dados são valiosos; e o segundo: eu creio que é esse diálogo e a forma como também se é exigido de você quantificar dados, que ainda é muito institucional, muito ligado a esse processo da academia e desconstruir essa ideia de que a gente precisa estar dentro de uma academia para produzir esses dados ou passar por um projeto de pesquisa numa universidade para que a gente consiga, de fato, institucionalizar esses dados ainda é um empecilho. As pessoas produzem esses conhecimentos no território, então, validar isso pelo modo de vida científico e hegemônico é muito complexo ainda, mas eu creio que conforme mais dados a gente gera a partir das vivências da periferia, mais a gente mostra o quanto tudo isso é importante.”, pontua Paulie.

 

A entrevistada explica que um ponto importante é o fator tempo. Segundo ela, embora a incidência e a fiscalização de políticas públicas sejam frequentemente tratadas como urgentes, o processo de extração e acesso aos dados necessários para esse acompanhamento é burocrático e lento, o que acaba dificultando respostas mais rápidas e efetivas: “Tudo é muito para ontem, porque as pessoas, principalmente nas periferias e nas comunidades mais afastadas, vivem situações de emergência, e aí eu falo muito pela perspectiva da mudança do clima. Então, como é tudo muito urgente, todo esse processo de gerar, validar esses dados, incidir, fazer advocacy em cima deles, é muito demorado e a emergência das comunidades está aí. Então, se fosse um processo menos burocrático, talvez a gente tivesse alguns avanços, né? Porque eu penso que, contra dados, não temos argumentos. Isso é muito um argumento para a gente usar com os próprios gestores públicos.”, frisa.

 

Dados como ferramenta para políticas públicas mais inclusivas

Entre os participantes, a discussão sobre geração cidadã de dados despertou reflexões sobre a importância de envolver as próprias comunidades nos processos de produção de informação. Para a graduanda em Relações Internacionais (UEMA) Ana Luiza Luz, que também integra o Núcleo de Estudos Socioambientais em Relações Internacionais (NESRI), uma das principais contribuições do debate foi reforçar a necessidade de colocar essas populações historicamente invisibilizadas no centro das decisões sobre quais dados são coletados e para quais finalidades.

 

Ao pensar na aplicação dessa prática em seu próprio território, Ana Luiza, que faz parte de um quilombo recém titulado, destacou que a produção de dados sobre comunidades quilombolas contribui para o reconhecimento desses territórios e de suas especificidades culturais e sociais. Segundo ela, informações produzidas pelas próprias comunidades podem fortalecer a elaboração de políticas públicas e ampliar a visibilidade de grupos que ainda enfrentam dificuldades para terem seus direitos reconhecidos pelo Estado.

 

“Acredito que quando a gente produz dados sobre as comunidades, a gente fortalece também as políticas públicas para elas. Se a gente não sabe que essas comunidades existem, que elas se autotitulam como quilombolas, que elas reproduzem modos de viver diferentes, a gente não consegue lutar pela titulação delas, por exemplo. Então, recolher dados, não só demográficos, mas dados mais específicos sobre comunidades quilombolas é muito importante, principalmente para produzir políticas públicas para comunidades que não são ainda tituladas, que são a maior parte delas no Brasil todo.”, pontua Ana Luiza.

 

Ana Luiza Luz, graduanda em Relações Internacionais (UEMA) e integrante do Núcleo de Estudos Socioambientais em Relações Internacionais (NESRI).

 

Tecnologia, território e inclusão na Amazônia

Além da produção de dados nos territórios, o debate também provocou reflexões sobre quem consegue acessar e compreender as tecnologias que moldam a vida cotidiana. Para Kim Silva, Diretora Regional da Amazônia na Palmares Lab, a discussão sobre geração cidadã de dados também passa pelos desafios de acesso à informação e às tecnologias digitais. Ao relacionar o tema à experiências vividas em sua própria família, ela reflete sobre como fatores geracionais, econômicos e educacionais influenciam a forma como as pessoas se relacionam com plataformas digitais e com as informações que consomem.

 

“Eu acho que a gente tem um vácuo geracional, um vácuo linguístico, um vácuo financeiro também, que faz com que a gente não tenha essa conversa de maneira igual. Isso quer dizer o quê? Que, por exemplo, a geração dos meus avós, quando eles estavam ali na sua juventude, eles acessavam as cartas, a tecnologia de cartas e tudo. Mas o meu avô, inclusive, antes de falecer, ele aprendeu a mexer no WhatsApp. Só que nem um pouco das conversas que a gente teve aqui, o mínimo da ponta do iceberg, eu consegui conversar com ele. Mas eu lembro na época o quanto um algoritmo viciado pode fazer. Porque nas eleições de 2018, o meu avô teve um princípio bolsonarista pelo que ele tava consumindo no YouTube. E a gente precisou mudar os algoritmos para que ele conseguisse acessar coisas de qualidade sem ele saber que a gente estava pesquisando, sabe? Colocando outras fontes para ele acessar. Mas isso não é a realidade da maioria das pessoas na periferia, a maioria das pessoas têm um celular que é compartilhado com todo mundo da casa. Então, eu acho que a gente tem muito mais coisas que a gente tem para trabalhar do que de fato parece. Tem um esforço maior de conseguir preencher essas conversas que são inexistentes e não alcançadas para muita gente.”, afirma Kim.

 

A ampliação do conceito do que é tecnologia foi outro tema abordado durante o debate. A discussão sobre esse termo na Amazônia também envolve o reconhecimento de saberes e práticas desenvolvidas historicamente pelos povos da região. A valorização dessas tecnologias é fundamental para evitar que saberes ancestrais sejam tratados como ultrapassados diante do avanço das ferramentas digitais.

 

Kim Silva, Diretora Regional da Amazônia na Palmares Lab. Foto: Lírio Moraes.

 

“Na Palmares Lab, a gente parte do ponto da tecnologia ancestral, que dá pra gente esse tempo que não é linear sobre as coisas, muito do que a gente usa para resolver os nossos problemas são tecnologias que foram criadas há milênios de anos, pelos povos que aqui habitam essa região. Então, eu acho que a gente tem uma disputa também para fazer de demarcação, de proteção dessas tecnologias, para que elas não sejam validadas como obsoletas, porque, por exemplo, a tecnologia da pecônia, de você fazer aquele instrumento para subir no açaí, é o que ainda sustenta o maior processo de exportação do açaí, no Brasil, de maneira conservada. Mas, se a gente pensa como a tecnologia, por exemplo, agrícola, chegar nos açaizais, muda também toda a cultura do nosso povo, então, a gente não pode deixar de proteger as nossas tecnologias, que também são tecnologias, e não cair nesse conto de que, para ser algo novo, para ser uma tecnologia boa, precisa necessariamente ser algo digital. Eu acho que a gente ainda está um pouco longe de entender isso, mas é algo muito importante.”, pontua Kim.

 

A defesa das tecnologias ancestrais apresentada por Kim reforça um dos desafios do debate sobre inovação na Amazônia: reconhecer que o desenvolvimento tecnológico não se limita ao universo digital. Na região, muitas das soluções que sustentam atividades econômicas e modos de vida foram construídas a partir da experiência acumulada por povos e comunidades ao longo de séculos e que muitas vezes não são reconhecidas como inovação.

 

O debate sobre tecnologia na Amazônia também passa pela construção de ambientes digitais mais inclusivos. Em suas falas, Paulie destacou que as tecnologias não são neutras, mas refletem valores e comportamentos presentes na sociedade. Na avaliação dela, enfrentar desigualdades no ambiente digital exige ampliar debates sobre direitos humanos e fortalecer processos educativos capazes de promover uma participação mais crítica e inclusiva na construção das tecnologias.

 

“A Amazônia tem diversas tecnologias para se comunicar. E não só essa tecnologia que a gente às vezes pensa de um computador, como a internet, o avanço da IA, o TikTok. Eu penso que a gente ainda tem que realizar um progresso para essas tecnologias, que a gente chama de novas tecnologias, para que elas se afinem e se adequem à forma como a Amazônia vive, a forma como as pessoas das comunidades vivem e têm seu tempo. Isso é um debate muito difícil, mas a gente precisa debater. Acho que não temos resposta para dizer como as tecnologias podem ajudar. Acho que a gente tem uma ideia de como podemos construir uma rede onde ela seja mais acessível e reproduza menos desigualdades, discursos de ódio, racismo, transfobia, homofobia. Então, começa com a gente, porque pensando também na questão das IAS, as IAS são treinadas pelas pessoas que utilizam, quem utiliza elas todos os dias, somos nós. Essas reproduções de desigualdades, reproduções de estereótipos, acontecem porque pessoas treinaram isso, então, essa construção começa no social. Começa com debates francos sobre direitos humanos, sobre racismo, sobre transfobia, sobre LGBTfobia, sobre a importância de ouvir comunidades periféricas, sobre a gente entender como o machismo cresce e o controle do patriarcado, sobre corpos que performam feminilidade. Tudo isso é um processo que precisa ser debatido. E eu falo que o processo tem que ser debatido desde a educação básica até a gente se formar, o que seja um profissional. Porque eu penso hoje que muitas pessoas realizam uma formação, mas socialmente falando, a gente tem um desmonte, uma desvalorização muito grande desse saber de ciências humanas. E isso traz esse debate de direitos humanos, que é fundamental, porque a internet não se constrói somente com dados e cálculos e com pessoas programando; ela se constrói de pessoas que pensam que refletem e que reproduzem também estereótipos, preconceitos, violências.”, frisa.

 

A discussão da palestra também dialoga com um desafio recorrente enfrentado por comunidades periféricas e tradicionais: a invisibilização de suas pautas nos meios de comunicação. Em muitos casos, grandes obras e empreendimentos são apresentados a partir dos benefícios prometidos para determinados setores da cidade, enquanto os impactos socioambientais sobre os territórios afetados recebem pouca atenção. A produção cidadã de dados surge, nesse contexto, como uma ferramenta capaz de registrar experiências, denunciar violações e ampliar a visibilidade de grupos que historicamente permanecem à margem dos levantamentos oficiais e da cobertura midiática tradicional.

 

Como atividade, os participantes analisaram manchetes sobre empreendimentos de grande impacto para identificar o que está sendo ocultado. Foto: Lírio Moraes.

 

Sobre a Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas

É um grupo de ativistas, pesquisadores, organizações e movimentos sociais reunido em prol dos direitos digitais no horizonte da justiça socioambiental e climática para populações da Pan-Amazônia. Participando de eventos, produzindo conhecimento dentro e fora da academia, incidindo sobre espaços de tomada de decisão, orientados por uma visão holística a partir do território.

 

Fazem parte da Coalizão o Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA) e a Abaré – Escola de Jornalismo, do Amazonas; Centro de Pesquisa de Rondônia sobre Tecnologia, Estado e Sociobiodiversidade (C-PARTES); a Desvelar, do Acre; Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e Associação Cultural Na Cuia, do Pará; e Eco-Mídia.

 

Sobre o NIC.br

O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR – NIC.br foi criado para implementar as decisões e os projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br, que é o responsável por coordenar e integrar as iniciativas e serviços da Internet no País.

 

Texto e foto de capa:

Lírio Moraes | Na Cuia

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