"A saída é pela esquerda": como lideranças de 26 países debatem estratégias contra a extrema-direita

Conferência organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo reuniu, no mês de maio em São Paulo, partidos, movimentos sociais e comunicadores para trocar experiências sobre comunicação política, campanhas eleitorais e organização territorial diante do avanço autoritário.

 

Em um ano eleitoral marcado por tensões políticas e pelo crescimento de discursos autoritários, lideranças políticas, pesquisadores e representantes de movimentos sociais de quatro continentes se encontraram em São Paulo para debater o que pode barrar o avanço da extrema-direita ao redor do mundo. A conferência “Good Night, Far Right — A Saída é pela Esquerda”, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo, reuniu delegações de 26 países em torno de uma pergunta urgente: o que a esquerda global pode aprender entre si?

 

A iniciativa é parte de uma rede internacional construída pela Fundação Rosa Luxemburgo, organização alemã ligada ao partido Die Linke (A Esquerda), que mantém escritórios em 25 países e tem como missão central a formação política. A primeira edição do encontro ocorreu em Berlim, em março de 2025, com presença expressiva de partidos de esquerda e movimentos sociais da Europa e da América Latina. O sucesso levou à decisão de ampliar o projeto para outros territórios, e o Brasil foi escolhido para sediar a segunda edição, em parte pela relevância do ano eleitoral.

 

A metodologia desta edição focou na transição do debate teórico para a aplicação prática nos territórios. Foto: Verena Glass

 

A Na Cuia conversou com Andreas Behn, jornalista e integrante da Fundação Rosa Luxemburgo no escritório Brasil-Paraguai, sobre as estratégias debatidas no encontro, o papel da juventude nesse cenário e o desafio de comunicar projetos progressistas em tempos de algoritmos e desinformação.


Da Alemanha à Áustria: lições de quem reverteu o jogo

A conferência não foi apenas um espaço de diagnóstico: seu eixo central foi a troca de experiências práticas. Andreas Behn destaca três casos que chamaram atenção dos participantes e que, segundo ele, podem servir de referência para movimentos progressistas em diferentes contextos.

 

O primeiro é o da própria Alemanha. Semanas antes das eleições, o Die Linke acumulava previsões negativas, com projeções em torno de 4%. O que se seguiu foi uma virada articulada sobre estratégias de comunicação e campanha ativa. O partido terminou com 9% dos votos.

 

“A conferência é um espaço para ver como eles comunicam as pautas, como conseguem ter sucesso nas eleições e manter esse sucesso. Queremos que partidos de outros países aprendam dessas experiências” — André Behn, Fundação Rosa Luxemburgo

 

Andreas Behn – Diretor do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e no Paraguai. Foto: Mathilde Missioneiro.

 

Nos Estados Unidos, o caso de Nova York chama atenção por um motivo diferente: a eleição de um prefeito progressista dentro do Partido Democrata, identificado com pautas diretamente socialistas, mostra que a disputa por agendas de esquerda também acontece dentro de estruturas partidárias tradicionais. Para Behn, o exemplo revela uma possibilidade estratégica que vai além do voto partidário.


Já na Áustria, a referência que mais surpreende vem de cidades governadas pelo Partido Comunista em um país historicamente pouco associado a experiências socialistas. O que chamou atenção não foi o rótulo, mas a continuidade: políticas sociais efetivas que se sustentaram eleitoralmente ao longo do tempo.

 
Juventude: o campo mais disputado da política contemporânea

Um dos eixos mais debatidos na conferência foi o papel das juventudes no cenário político atual. Se durante décadas o senso comum localizou jovens como naturalmente inclinados a posições progressistas, esse quadro foi profundamente alterado e a extrema-direita ocupa hoje esse espaço de forma intensa.

 

“A juventude tem um papel muito importante porque estamos numa situação difícil. Metade dos jovens vai para a esquerda, como antigamente. A outra metade não fica no neutro, vai na extrema-direita” — Andreas Behn.

 

Para Behn, parte do fenômeno tem a ver com dinâmicas culturais, não apenas ideológicas. A extrema-direita se apresenta como algo “novo”, “cool”, “transgressor” — e isso tem apelo entre jovens em busca de identidade e pertencimento. Mas ele pondera: “Uma onda, uma moda sempre passa. Isso não fica durante muito tempo.”

 

A análise, no entanto, não serve como consolo passivo. O jornalista é enfático ao apontar que o trabalho político com juventudes precisa ser feito por jovens e a partir dos territórios onde esses jovens vivem não por “pessoas experientes” que assumem saber o que interessa à geração.

 

“Jovens entre 15 e 30 anos sabem muito bem o que interessa para eles e onde querem andar. Então, eu vejo esse desafio sobretudo para organizações de jovens, sejam políticas ou culturais.” — Behn.

 

Na prática, isso significa que iniciativas como a Na Cuia, comunicadores populares e organizações de base juvenil são parte central da resposta política ao avanço autoritário, não apenas destinatários de formações, mas protagonistas da disputa.

 

Comunicação popular vs. desinformação: o desafio das redes

Como enfrentar uma extrema-direita que domina as redes sociais, os algoritmos e a produção de desinformação em escala industrial? A pergunta atravessou boa parte dos debates da conferência, e a resposta de Behn não é simples, mas é honesta:

“A gente tem que assumir que a extrema-direita soube usar muito bem as mídias sociais, a tecnologia, todos os truques. E eles conseguem fazer isso porque têm um discurso muito simples: criar divisão, criar ódio, buscar culpados. Eles não têm o trabalho de apresentar soluções. — André Behn


Enquanto forças progressistas constroem argumentos baseados em evidências e propõem soluções que, por sua natureza, são complexas, a extrema-direita oferece respostas fáceis para problemas difíceis, e esse contraste funciona nas redes sociais, onde a atenção é disputada a cada segundo.

 

Diante disso, Behn aponta dois caminhos complementares. O primeiro é a mudança de linguagem: “Dentro de partidos e grupos de esquerda, muitas vezes há discursos bastante ideológicos, bastante complicados para entender. A gente tem que mudar o jeito como coloca as coisas e falar do mesmo jeito que as pessoas com quem quer dialogar.” O segundo é a adaptação de formatos: mensagens curtas, conteúdos mais populares, presença consistente nas plataformas onde as pessoas estão.

 

“Publicar matéria de cinco páginas sem foto não funciona. O que funciona são mensagens curtas, como é nas redes sociais. A gente tem que encurtar os formatos e torná-los mais populares.”

 

Mas comunicação, para Behn, é também escuta. Ele cita como referência uma estratégia do Die Linke durante a campanha alemã: militantes foram de porta em porta por bairros de Berlim com uma regra clara: só podiam falar 30% do tempo. Os outros 70% eram para ouvir. O que as pessoas disseram nas suas casas sobre aluguel, transporte, serviços etc., virou o programa de governo do partido.

 

“Ouvir nesse caso era muito mais importante do que falar. E aí a tarefa do partido era: como a gente constrói um programa político em cima das ocupações diárias das pessoas?”— André Behn

 

Clima como campo de disputa política

A pauta climática apareceu na conferência como mais um território onde a extrema-direita avança com um argumento simples e destrutivo: a negação. Para Behn, isso representa uma virada no cenário: se até pouco tempo atrás havia algum consenso político em torno da urgência climática, hoje esse terreno está em disputa aberta.

 

“Estamos na defensiva com as pautas climáticas. Desde anos atrás estávamos na ofensiva”, reconhece. Mas ele não vê saída que não passe por manter esse debate vivo — e aponta que a realidade física do clima vai impor o tema, independente de qualquer discurso negacionista.

 

Para movimentos como o da Na Cuia, cuja linha editorial é ancorada em justiça climática e racismo ambiental, o argumento encontra eco direto: as populações periféricas, negras, ribeirinhas e indígenas da Amazônia já vivem os efeitos das mudanças climáticas no corpo, no território, no cotidiano. Não se trata de debate abstrato.

 

Democracia não cabe em uma palavra: o conselho para comunicadores populares

Ao ser perguntado sobre o que diria a jovens comunicadores populares que querem defender a democracia em seus territórios, Behn oferece uma resposta que começa por questionar a própria palavra.

 

“Quando você fala para alguém que tem que defender a democracia, talvez a pessoa não vá entender muito bem o que é isso. O que é defender a democracia? É a cada 4 anos dar seu voto?”, provoca. Para ele, o trabalho essencial é traduzir esse conceito para a vida concreta, mostrar o que se perde quando a democracia se deteriora, quais direitos deixam de existir, quais violências se tornam possíveis.

 

“É importante apostar num diálogo transparente. A transparência indica às outras pessoas qual é o seu lugar de fala. Quem é você? Por que você está falando? Isso impede que a outra pessoa fique presa em preconceitos.” — André Behn

 

O conselho final é ao mesmo tempo simples e exigente: escutar mais do que falar, ser transparente sobre de onde se fala, e confiar que a comunicação popular feita com honestidade, a partir dos territórios e das pessoas tem potência para disputar as narrativas que importam.

 

Para a Na Cuia, que nasce justamente desse lugar — jovens amazônidas, comunicadores de periferia, comprometidos com a verdade e os territórios que habitam —, a conferência oferece não apenas referências internacionais, mas confirmação de que o caminho que estamos construindo é parte de uma resistência global.

 

Sobre a entrevista

Esta matéria é baseada em entrevista concedida por André Behn à equipe da Na Cuia, realizada por ocasião da conferência “Good Night, Far Right”, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo, em maio de 2026. A entrevista foi conduzida por Lírio Moraes e editada por Tainá Barral – integrantes do Comitê de Comunicadores Populares da Associação Cultural Na Cuia.

 

Foto de capa:

Mathilde Missioneiro.

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