Ver-o-Peso chega aos 399 anos como símbolo da cultura e economia amazônica

O Mercado do Ver-o-Peso chega aos 399 anos reconhecido como um dos maiores símbolos da cultura, da economia e da identidade amazônica. Localizado às margens da Baía do Rio Guajará, a área reúne diariamente milhares de trabalhadores e visitantes, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.

 

Fundado em 1627, ainda no período colonial, o espaço surgiu como um ponto de fiscalização de mercadorias. Segundo a historiadora Alyne Virino Ricarte, da Wyden, o mercado nasceu quando o governo português instalou uma balança pública para controlar a entrada e saída de produtos e garantir a cobrança de impostos. Com o tempo, o local deixou de ser apenas um posto administrativo e passou a concentrar trocas comerciais e culturais. “Ribeirinhos, indígenas, negros e portugueses não só comercializavam produtos, mas também compartilhavam saberes culturais. Esse encontro fez do Ver-o-Peso o coração econômico e cultural da cidade”, explica.

 

Ao longo dos séculos, o mercado acompanhou as transformações urbanas e sociais de Belém sem perder sua essência. Ainda de acordo com a docente, o espaço se adaptou ao crescimento da cidade, ampliando suas atividades e incorporando novos produtos, mas mantendo sua centralidade no cotidiano da população. “Ele sobreviveu a reformas urbanas, à chegada de supermercados e até à especulação imobiliária, porque continua sendo o lugar onde os paraenses encontram produtos frescos e saberes tradicionais”, destaca.

 

Hoje, o Ver-o-Peso é formado por diferentes áreas interligadas, como a Feira do Açaí, a Pedra do Peixe, o Mercado de Ferro (Mercado de Peixe), o Mercado de Carne e o Solar da Beira. Juntos, esses espaços concentram uma grande diversidade de produtos típicos da Amazônia, como peixes, frutas, ervas medicinais, especiarias e artesanato.

 

Mesmo com as mudanças, elementos tradicionais permanecem vivos no cotidiano do mercado. O cheiro das ervas, o colorido dos peixes, o movimento intenso das negociações e a presença marcante das mulheres vendedoras seguem como características do local. Barcos vindos do interior continuam chegando diariamente com produtos como açaí, camarão e tucupi, reforçando a conexão entre a capital e as comunidades ribeirinhas.

 

Para a historiadora, o Ver-o-Peso é também uma expressão direta da identidade amazônica, especialmente por meio da alimentação e dos saberes populares. “A alimentação aqui é cultura, memória e resistência. Ingredientes como jambu, tucupi e peixe amazônico carregam saberes indígenas, ribeirinhos e afro-brasileiros. O mercado é um espaço vivo de transmissão desses conhecimentos”, afirma.

 

A força econômica do complexo também é significativa. Cerca de 2.400 trabalhadores atuam diariamente no local, garantindo o abastecimento da cidade e movimentando cadeias produtivas regionais. Mais do que um ponto de comércio, o espaço representa sustento, pertencimento e continuidade cultural para milhares de famílias.

 

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1977, o Ver-o-Peso também enfrenta desafios para preservar sua essência diante das transformações contemporâneas. Entre eles, estão a necessidade de melhorias na infraestrutura, a pressão do turismo e o risco de descaracterização do espaço. “O grande desafio é equilibrar o progresso com a proteção da cultura local, garantindo que o Ver-o-Peso continue sendo um mercado do povo paraense, e não apenas uma vitrine para visitantes”, pontua Alyne.

 

Às vésperas dos 400 anos, o complexo passa por um processo de revitalização que busca modernizar a estrutura sem abrir mão de suas características históricas. Ao completar 399 anos, o Ver-o-Peso reafirma seu papel como um espaço onde cultura, economia e tradição caminham juntas — um retrato vivo da Amazônia, pulsante e em constante transformação.

 

Redação:

Rafael Fonseca

 

Foto de capa: 

Osvaldo Forte/ Agência Belém

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