Pajé Roxita, do Marajó, ancestralizou
No último sábado, 30, ancestralizou Pajé Roxita, deixando um legado de cura, social, cultural e espiritual para o Marajó e o mundo. Há alguns meses a Pajé vinha se despedindo e deixando orientações para os seus de como continuar sem ela. Mesmo que não aparentasse, seus guias já haviam lhe anunciado a passagem.
HISTÓRIA DE VIDA
No dia 21 de maio de 1951 nasceu Irandilva Miranda Dantas, que ficou conhecida pelo povo como Pajé Roxita, Mestra Roxita, Dona Roxita ou, para os mais próximos, Tia Rô. Construiu uma trajetória marcada pela cura, pela caridade e pelo compromisso profundo com a vida comunitária. Aos sete anos de idade, sem nunca ter frequentado a escola formal, iniciou seu caminho na cura espiritual e física, quando passou a ver e ouvir os guias que a acompanharam e orientaram durante toda a vida.
Participou de uma geração de mestres e mestras conhecidos no carimbó e boi bumbá da região do Arari, como seu amigo e parceiro musical Mestre Dikinho, e o também já saudoso Mestre Damasceno. Era compositora, ama do Boizinho Meia-Noite e criadora do Grupo de Danças Folclóricas Marayo e da Banda Marayo, em convênio com a Escola de Música Carlos Gomes. Tornou-se uma referência humana, espiritual e comunitária ajudando a moldar o cenário cultural e social da cidade de Soure, muito antes de se falar em políticas culturais ou produção cultural.
Há mais de cinco décadas, promoveu, em frente à sua residência, celebrações tradicionais que se tornaram parte da memória coletiva da cidade: São Cosme e Damião, Santo Antônio, festas juninas, Dia das Crianças, Círio, Natal, entre outras, com distribuição de brinquedos, roupas e alimentos para a comunidade.
Presidente da Cruz Vermelha de Soure, liderança formadora dos escoteiros mirins da cidade, fundadora de centro comunitário e creche local. Assumiu uma cadeira na Câmara de Vereadores de Soure, entre os anos de 2020 e 2024, onde viabilizou o Programa de Alimentação Digna para Presidiários, com recursos da SUSIPE. Ao longo da vida, participou de palestras, movimentos sociais, marchas e protestos, sempre em defesa dos direitos dos mais vulneráveis.
A PAJELANÇA CABOCLA DO MARAJÓ
A prática se sustenta na cura e na caridade, princípio essencial da pajé, e no chamado espiritual que se manifesta sob a força da Pena e Maracá. Conhecida também como Linha do Fundo, a pajelança cabocla marajoara tem como fundamento de cura os saberes milenares das ervas, plantas, raízes, óleos e resinas, utilizados na preparação de banhos, garrafadas, chás, unguentos e outros remédios tradicionais.
Pajé Roxita contribuiu para a ciência na Amazônia, colaborando com incontáveis pesquisas, documentários e eventos acadêmicos compartilhando seus saberes. Recentemente participou, com a Ministra Macaé Evaristo, da inauguração da 1ª fase do Centro de Referência em Direitos Humanos no Marajó na Universidade Federal do Pará, participou da Bienal das Amazônias durante a COP30 e recebeu o Prêmio Mestra de Saberes Tradicionais promovido pela Casa da Cultura de Canaã dos Carajás.
A trajetória de Pajé Roxita representa muito mais do que uma história individual; ela traduz a força dos saberes ancestrais, da espiritualidade e do compromisso com o cuidado coletivo. Sua caminhada é marcada pela fé, pela caridade e pela dedicação incansável ao bem-estar do povo marajoara, mantendo viva a tradição da pajelança cabocla e fortalecendo a cultura amazônica através de ações sociais, culturais e espirituais. Seu legado permanece presente nas pessoas que foram acolhidas, curadas, orientadas e inspiradas ao longo de sua vida. Assim, Pajé Roxita segue sendo símbolo de resistência, sabedoria e amor ao próximo, mostrando que o verdadeiro conhecimento também nasce da natureza, da escuta e da vivência comunitária.
“Cuidem das crianças e das mulheres”, a Pajé deixou alertado entre suas últimas orientações.
O velório foi realizado neste domingo, 31, no Ginásio Abel Nunes de Figueiredo, localizado na Quinta Rua entre Travessas 13 e 14, em Soure.
Texto:
Luciana Bessa.