Moradores e coletivos denunciam retirada de vegetação das margens do Rio Tucunduba durante as obras do Parque Linear
Comunidades da Bacia do Tucunduba afirmam que intervenção compromete áreas verdes e reivindicam diálogo com órgãos responsáveis pelo projeto.
Moradores, estudantes, trabalhadores e coletivos dos bairros do Guamá, Terra Firme, Canudos, Marco e Universitário manifestaram repúdio à retirada de vegetação nas margens do rio Tucunduba durante as obras de implantação do Parque Linear do Tucunduba, em Belém.
Em nota publicada no Instagram, neste domingo, 12, os coletivos afirmam que o uso de máquinas pesadas para a remoção de árvores e vegetação representa uma ameaça ao equilíbrio ambiental da região e criticam a falta de participação popular nas decisões relacionadas à intervenção.
“A cobertura vegetal em todo o curso do rio evita o seu assoreamento, diminui as ilhas de calor e permite a sociabilidade às margens do rio, além de ser um corredor ecológico possibilitando a presença da fauna e flora. […] Repudiamos a falta de transparência e uso de máquinas pesadas sem a consulta popular e o diálogo com os moradores dos bairros adjacentes”, afirma a nota.
Na publicação, os grupos também apontam a contradição de um projeto apresentado como parque ambiental resultar na destruição da vegetação existente, principalmente considerando que Belém sediou, em 2025, a COP30 – conferência internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre mudanças climáticas, que reuniu líderes, governos, cientistas e representantes da sociedade civil para discutir ações de enfrentamento à crise climática.

Além disso, segundo os coletivos, a preservação ambiental do rio Tucunduba tem sido realizada ao longo de décadas por movimentos sociais, universidades e organizações comunitárias, que realizam ações de recuperação ambiental, plantio de árvores e educação ambiental nas margens do rio, contribuindo para a conservação desse importante patrimônio natural e para o enfrentamento das mudanças climáticas.
A publicação também gerou manifestações de apoio entre os comentários. A geógrafa Ana Luiza Araújo criticou a retirada da vegetação e cobrou maior diálogo entre o Governo do Estado e os moradores da região.
“O Parque Linear do Tucunduba não pode ser construído às custas da destruição da natureza que deveria ser protegida. O Governo do Estado do Pará precisa responder à sociedade, pois essa obra foi anunciada como símbolo de sustentabilidade e seria um parque ambiental linear. E só o que vemos é a derrubada de árvores, degradação ambiental e falta de diálogo com a comunidade que vive há décadas na bacia do Tucunduba. […] O que defendemos é um modelo de intervenção que priorize a proteção ambiental (sem supressão vegetal) a participação popular e o respeito ao território. A população do Tucunduba merece um projeto que recupere o rio, preserve as árvores, reduza os impactos ambientais e valorize a vida de quem mora na área”, comentou.

A nota, publicada no instagram, foi assinada pelos coletivos: Movimento Tucunduba Pró Lago Verde, Defensores dos Rios Urbanos, Tela Firme, Os Tamuatás do Tucunduba, Mapas Firmes, Chalé da Paz, Movimento Socioambiental Flora Amazônica (MOSAFA), Boi Marronzinho, Coletivo Lutar Sempre, Mandí e Observatório da Baixadas.
As organizações reivindicam a criação de um comitê popular deliberativo para acompanhar as decisões relacionadas ao projeto e defendem maior diálogo entre moradores e autoridades responsáveis.
“Não vamos aceitar obras como esta em nosso território. Respeitem o nosso rio. Respeitem a nossa história”, afirmam.
O custo das “melhorias” nas periferias
Os impactos da retirada da vegetação nas margens do rio Tucunduba recaem, sobretudo, sobre as comunidades periféricas da bacia, que historicamente convivem com problemas como alagamentos, enchentes, poluição e precariedade da infraestrutura urbana. A perda de áreas verdes agrava essas vulnerabilidades ao reduzir a proteção natural contra o calor, o controle de alagamentos, comprometendo a biodiversidade e a qualidade de vida da população.
Nesse contexto, a intervenção configura mais um caso de racismo ambiental – conceito que descreve a distribuição desigual dos impactos ambientais sobre populações historicamente vulnerabilizadas por fatores sociais, econômicos e raciais. Enquanto áreas mais valorizadas costumam concentrar investimentos voltados à qualificação ambiental, comunidades periféricas seguem sendo as mais expostas aos efeitos da degradação do meio ambiente e, frequentemente, excluídas dos processos de decisão sobre seus territórios.
O caso do Tucunduba não é isolado. Nos últimos anos, Belém tem acumulado intervenções urbanas que suscitaram denúncias de racismo ambiental. Um dos casos que mais repercutiu no último ano, foi o projeto do novo Sistema de Esgotamento Sanitário da Doca de Souza Franco, que previa a implantação de uma estação elevatória na Vila da Barca para receber os rejeitos produzidos na Doca. A decisão foi alvo de críticas de moradores, pesquisadores e movimentos sociais, que classificaram a medida como um caso de racismo ambiental por concentrar em uma comunidade historicamente vulnerabilizada os impactos de uma obra voltada à requalificação de bairros mais valorizados da cidade.
Obra do Parque Linear
Com investimento estimado em 96 milhões, a obra de urbanização e qualificação do Canal do Tucunduba é executada pelo Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop), com recursos do Ministério das Cidades e contrapartida estadual.

O projeto inclui obras de macrodrenagem, saneamento, habitação e a implantação de um parque linear, com previsão de beneficiar diretamente cerca de 50 mil famílias dos bairros Guamá, Terra Firme, Canudos, Universitário e Marco.
Redação:
Lírio Moraes, Na Cuia.
Foto de capa:
Dayane Gonçalves Farias.