Linguagem como resistência: o Bajubá e as guerrilhas linguísticas TransLGB no Mês do Orgulho Trans

Janeiro é reconhecido como o Mês do Orgulho Trans, um período dedicado a dar visibilidade à memória e à luta da população trans e travesti no Brasil – país que ainda lidera os índices de violência contra essa população. Além de atos e manifestações, a linguagem também é uma importante ferramenta de resistência para a população transgênera, com a criação de códigos e palavras que historicamente garantiram sobrevivência e pertencimento. É a partir dessa perspectiva que a multiartista Shayra Brotero desenvolveu a pesquisa “Guerrilhas de Linguagem TransLGB”, lançando luz sobre o Bajubá, um repertório linguístico criado e sustentado por corpos dissidentes como estratégia de resistência, proteção e enfrentamento.

 

O que é o Bajubá

Conhecido popularmente como o dialeto LGBTQIAPN+, o Bajubá (ou pajubá) tem sido cada vez mais incorporado ao vocabulário dos brasileiros, principalmente por meio das redes sociais. Termos como acué, amapô, babado e picumã já circulam amplamente no cotidiano. No entanto, mais do que gíria ou bordão, o bajubá é uma linguagem codificada criada por travestis, mulheres trans e gays afeminados em contexto de marginalização, para proteger, reconhecer e afirmar essas existências em um país historicamente violento com corpos dissidentes.

Sua origem vem da fusão de palavras da língua portuguesa com termos extraídos dos grupos étnico-linguísticos africanos, como nagô e iorubá, que chegaram ao Brasil por meio dos africanos escravizados da África Ocidental, e reproduzidos nas práticas de religiões afro-brasileiras. Hoje o bajubá é símbolo de identidade e de ancestralidade.

 

“Guerrilhas de Linguagem TransLGB”

A pesquisa desenvolvida por Shayra Brotero, investiga como esse repertório linguístico foi, e segue sendo, uma ferramenta de afirmação identitária e de enfrentamento à marginalização de pessoas trans e LGB (lésbicas, gays e bissexuais) no Brasil. Segundo a autora, embora o bajubá tenha se popularizado para além da comunidade, pessoas LGBTQIAPN+ continuam criando neologismos e novas expressões ancoradas nessa linguagem, elaborando códigos próprios que garantem uma comunicação mais seletiva e preservam seu caráter de reconhecimento e proteção entre pares.

“As meninas que ainda estão nas ruas trabalhando com a prostituição têm um uso ainda mais assíduo do bajubá, tendo esse dialeto uma força sem igual quando se trata de resistência, proteção e criatividade. De modo geral, o Bajubá, bem como as demais linguagens de guerrilha TransLGB, é a grande força materializada em palavras que nossas travas ancestrais trouxeram ao nosso universo e que hoje ganha as casas, as comunidades e está na boca do povo apesar de ser o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+”, afirma Shayra.

 

Linguagem viva e produção de conhecimento

De acordo com a autora, além do registro histórico, o trabalho mapeia novos fenômenos linguísticos que expressam a contemporaneidade e a efervescência das chamadas linguagens de guerrilha TransLGB. O trabalho também visa ampliar a circulação e a legitimação desses repertórios no campo acadêmico: “Um dos objetivos é emancipar essas linguagens entre as nossas e fazer com que as gatas que adentrem a academia encontrem pesquisas que ajudem a compreender nossos fenômenos, evidenciando o quanto a nossa mente é criativa e sagaz e como a língua é viva. A ideia é que com essa pesquisa, assim como outras que tratam do mesmo assunto, possam fundamentar futuras pesquisas e a criação de novos fenômenos linguísticos”, pontua.

 

Da vivência à pesquisa acadêmica

O interesse de Shayra pelo bajubá teve origem ainda na infância, a partir da convivência com pessoas trans e travestis, cuja forma particular de se comunicarem despertava curiosidade pelo uso de códigos que não eram facilmente compreendidos por quem estava ao redor. Esse interesse se intensificou em 2015, quando ela ingressou no curso de Letras e passou a discutir o tema de forma mais sistemática, especialmente em diálogo com colegas LGBTQIAPN+.

 

Outro marco importante para o aprofundamento da pesquisa foi a influência da artista Linn da Quebrada, especialmente com o lançamento do álbum “Trava Línguas”, considerado um trabalho fundamental para a arte trans no Brasil e um resgate das raízes das chamadas linguagens de guerrilha TransLGB. No disco, Linn evidencia o bajubá como uma linguagem de conexão e alerta coletivo, articulada às experiências cotidianas e às violências que atravessam essas existências.

 

A investigação acadêmica da pesquisa começou como um trabalho para uma disciplina de Linguística, no qual Shayra analisou uma das músicas do álbum, e posteriormente se expandiu, dando origem a um estudo mais amplo sobre o bajubá e outros fenômenos linguísticos que compõem as linguagens de guerrilha TransLGB.

 

O aprofundamento do estudo ocorreu durante o período da pandemia, quando a autora passou a adotar a entrevista como principal método de investigação. A primeira conversa foi realizada com Verônica Valentino, que teve papel central na consolidação do trabalho, inclusive ao nomear a pesquisa como “Linguagens de Guerrilha TransLGB”, ao reconhecer que essas linguagens são criadas sobretudo por travestis e extrapolam o bajubá, incorporando sufixos, neologismos e elementos de outras línguas. Em um segundo momento, Shayra entrevistou Jovana Baby, considerada uma das precursoras do bajubá, sua contribuição foi fundamental para compreender a trajetória histórica dessas linguagens e para o aprofundamento teórico da pesquisa.

 

O artigo que sintetiza o estudo foi desenvolvido a partir de uma entrevista que Shayra concedeu ao Instituto Tomie Ohtake e se apoia também no conceito de escrevivência, método de autoescrita proposto por Conceição Evaristo. Ao todo, três entrevistas realizadas em períodos distintos estruturam o trabalho, conduzidas de maneira orgânica e articuladas à vivência da própria pesquisadora.

 

Capa do volume “Palavra: caderno-ensaio 2”

 

A pesquisa “Guerrilhas de Linguagem TransLGB” integra o livro “Palavra: caderno-ensaio 2”, publicado pela editora Instituto Tomie Ohtake. O volume foi vencedor do Prêmio Jabuti 2025, na categoria Projeto Gráfico, e reúne textos de autores renomados da literatura, das artes e do pensamento contemporâneo, como Ailton Krenak, Carlos Drummond de Andrade, Mira Schendel, Castiel Vitorino Brasileiro, Drik Barbosa, entre outros nomes de destaque da cena cultural brasileira.

 

Quem é Shayra Brotero

Licenciada em Letras Língua Portuguesa pelo Instituto Federal do Pará (IFPA), possui pesquisas contundentes sobre as linguagens de guerrilha TransLGB e sobre o protagonismo preto nas poesias de Bruno de Menezes na década de 1930. Integrante do movimento de vanguarda artística As Themonias. Shayra sempre foi autodidata, se tornando uma potente multiartista na cidade de Belém com produções nacionais e internacionais na performance, na discotecagem e no visagismo, somando 10 anos de carreira como Shayra Brotero e mais de 18 anos produzindo arte em diversos segmentos. Atualmente possui o cargo de Coordenadora do Núcleo de Cultura da Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável- Cojovem.

 
Janeiro: Mês de memória e enfrentamento

Também conhecido como Janeiro Lilás, o Mês do Orgulho Trans tem origem em 29 de janeiro de 2004, quando o Ministério da Saúde lançou, no Congresso Nacional, a campanha “Travesti e Respeito”, com o apoio de lideranças do movimento pelos direitos das pessoas trans. A data tornou-se um marco no enfrentamento à transfobia no Brasil e passou a ser reconhecida como o Dia Nacional da Visibilidade Trans.

 

Apesar desse avanço simbólico, dados recentes evidenciam a permanência da violência contra essa população. Segundo o último dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), referente ao ano de 2024, o Brasil manteve-se, pelo 16º ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo, com o registro de 122 assassinatos.

 

Diante desse cenário, o Janeiro Lilás busca promover reflexões sobre a importância da visibilidade de pessoas transgênero no país, destacando a necessidade de ampliar a representatividade e fortalecer a luta pelo acesso à saúde, à educação, à geração de trabalho e renda dignos, além do enfrentamento ao preconceito e à discriminação.

 

Redação: Lírio Moraes, Na Cuia.

Capa: Luezley Sol, Na Cuia.

Compartilhe agora!