“Encantos do Maicá”: UFOPA e Associação de Moradores lançam catálogo de Turismo de Base Comunitária em Santarém
O projeto reúne ações no bairro Pérola do Maicá e busca valorizar o território e a economia local.
A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em parceria com a Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá (AMBAPEM), lançou um catálogo para divulgar o projeto “Encantos do Maicá”, iniciativa de turismo de base comunitária desenvolvida em Santarém, no oeste do Pará. A proposta busca evidenciar aspectos culturais, sociais e ambientais do território, além de contribuir para a geração de renda na comunidade.
O lançamento oficial do documento para a comunidade foi realizado no dia 18 de abril deste ano, na sede da AMBAPEM. A atividade integrou a programação comemorativa dos 35 anos da Associação. O evento contou com a presença do Secretário Municipal de Turismo de Santarém, representantes do Grupo de Pesquisa “O direito à cidade em Santarém-PA” (GDAC), além de organizações parceiras e membros da comunidade local.

O momento também foi marcado como um espaço de celebração e de retorno à comunidade sobre o trabalho desenvolvido ao longo do projeto. Durante a atividade, foi apresentado o processo de construção do catálogo, desde os primeiros diálogos no território até as etapas de pesquisa e sistematização, além de seus principais resultados. A partilha reforçou o fortalecimento da identidade local, evidenciando o pertencimento e o reconhecimento das histórias, práticas e modos de vida do bairro.
A importância do Turismo de Base Comunitária (TBC) também foi destacada durante o evento, como uma estratégia construída a partir do próprio território, que valoriza os saberes locais, a autonomia da comunidade e o cuidado com os sujeitos humanos e não humanos. Mais do que uma atividade econômica, o TBC aparece como uma ferramenta de fortalecimento coletivo, capaz de gerar renda, visibilidade e reconhecimento, ao mesmo tempo em que preserva as dinâmicas sociais, culturais e ambientais do Bairro Pérola do Maicá.
O encontro também foi um momento para reafirmar como a pesquisa científica pode caminhar junto ao saber popular, valorizando os conhecimentos construídos no território e mostrando que, quando articulados, esses diferentes saberes ampliam as possibilidades de leitura, registro e afirmação da realidade vivida no Bairro Pérola do Maicá. Especialmente por essa região estar inserida em um contexto de avanço de pressões de grandes empreendimentos logísticos.
O documento buscou evidenciar um território vivo, dinâmico e marcado por múltiplas conexões. A região reúne diferentes ecossistemas, como lagos, igarapés e várzeas e a própria cidade, que sustentam uma ampla biodiversidade e, ao mesmo tempo, modos de vida próprios. O Maicá é habitado e construído por comunidade de pescadores artesanais, agricultores familiares, ribeirinhos, indígenas, quilombolas e moradores das periferias urbanas. Assim, o território se afirma não apenas por sua dimensão ambiental, mas também pelas relações sociais, práticas culturais e formas de organização que o constituem, ganhando ainda mais relevância diante das disputas e ameaças que incidem sobre esse território.
A construção do projeto
A iniciativa foi desenvolvida pela Ufopa, por meio do GDAC, em parceria com a AMBAPEM. O processo teve início em 2024, a partir da interação entre a universidade e os moradores, quando estudantes do Bacharelado em Gestão Pública e Desenvolvimento Regional (GPDR), turma de 2023, realizaram uma visita ao bairro durante a disciplina “Instituições de Direito”. A atividade deu origem ao diálogo que resultou na construção do catálogo.
Em 2025, o GDAC retornou ao território para desenvolver, junto à AMBAPEM, uma experiência de turismo de base comunitária. A partir dos diálogos construídos nesse momento, surgiu a necessidade de elaborar um documento que não apenas apresentasse o TBC praticado no Lago do Maicá e seus atrativos, mas que também mapeasse os diferentes sujeitos e atores que vivem no bairro, além de registrar os processos de luta e resistência que marcam o território.
Para isso, foram utilizadas diferentes técnicas de pesquisa, incluindo levantamento bibliográfico de produções sobre e com o bairro Pérola do Maicá, trabalhos de campo e reuniões com moradores e atores locais. As atividades de campo ocorreram entre 2024 e 2025 e envolveram fotodocumentação, conversas formais e informais, caminhadas pelo território, visitas aos atrativos turísticos e entrevistas com moradoras e moradores.
Impactos no território
O material também se tornou uma ferramenta de visibilização, inovação e fortalecimento do território, como destaca a Coordenadora do projeto, Ana Beatriz Reis: “O catálogo tem como objetivo dar visibilidade a essa iniciativa local e também serve como um instrumento de luta dos moradores em defesa do seu território”.
Segundo a Associação de Moradores, o catálogo tem papel relevante na valorização das práticas locais de turismo de base comunitária. “É muito importante porque representa muito sobre a dinâmica trabalhada pelos fazedores de turismo de base comunitária do nosso bairro e que traz muito das vivências e aprendizados adquiridos ao longo desses cinco anos”, afirma Valdeci Oliveira, presidente da AMBAPEM.
Para o educador popular Yuri Rodrigues, da Fase Amazônia, o projeto traz uma nova percepção de inovação, mostrando que as soluções também podem nascer no território, em contrapartida ao que geralmente se pensa em alternativas que vem de fora. “Quando debatemos a ideia de inovação, de forma geral, sempre pensamos em referências que estão ligadas a percepções técnicas ou surgem como alternativas externas deslocadas da nossa realidade. Falar sobre a dinâmica que acontece no Maicá é dizer que as soluções e a inovação nascem do chão que a gente pisa. Precisamos reconhecer essa modalidade de turismo como uma grande inovação que precisa ser incorporada pelas políticas públicas municipais para ter capacidade de responder aos desafios presentes da comunidade”, frisa o educador.
O catálogo está disponível exclusivamente em formato virtual, como forma de ampliar seu alcance e facilitar o acesso por diferentes públicos. O material pode ser baixado gratuitamente aqui.
Texto:
GDAC – UFOPA.
Edição:
Lírio Moraes, Na Cuia.
Foto de capa:
Guilherme Jardel.