Dia Nacional do Ciclista: Ruth Costa faz do pedal uma ferramenta de luta e transformação nas periferias
Da infância em uma comunidade quilombola à atuação no cicloativismo, Ruth Costa construiu uma trajetória marcada pela defesa da mobilidade ativa e pelo fortalecimento das periferias.
No Dia Nacional do Ciclista, comemorado no dia 19 de agosto, a bicicleta costuma ser celebrada como meio de transporte alternativo, esporte ou lazer. Mas para Ruth Costa, produtora cultural e ativista pela mobilidade, ela é mais do que isso: é uma ferramenta de transformação social, capaz de proporcionar autonomia, fortalecer a organização coletiva e ampliar o direito à cidade.
Mulher negra, amazônida, quilombola e periférica, Ruth luta ativamente por uma mobilidade urbana mais democrática, justa, inclusiva e sustentável. Uma atuação que, ao longo dos anos, ultrapassou a bicicleta e chegou ao próprio território, onde transformou sua casa no Espaço Cultural Ruth Costa, sede da Yellow Zone Águas Lindas. Mas a trajetória que a levou ao ativismo começa muito antes de sua atuação nos movimentos de mobilidade. Sua história começa em Concórdia do Pará, no nordeste paraense, em seu território quilombola.
Os primeiros deslocamentos
Em muitas comunidades da Amazônia, os direitos básicos – como saúde, educação, saneamento básico – são negligenciados, levando a população a se deslocar para poder acessar o que não chega ao seu território. Foi assim também na trajetória de Ruth. Ainda criança, ela precisou migrar para outro município para poder continuar estudando. A primeira escola que frequentou ficava na vila de Santana, no município de Bujaru, a oito quilômetros de distância da sua casa. Tendo o rio como única via de acesso, o trajeto era feito de canoa. Lá, conseguiu estudar até a quarta série. Para seguir os estudos, aos 11 anos precisou deixar a sua comunidade e ir morar na cidade. Tão jovem, enfrentaria outra violação de direitos: o trabalho infantil.
“Quando eu passei para a quinta [série], eu precisei vir para a cidade com 11 anos. Então, meus pais me colocaram numa dessas casas de família. Os pais colocavam com a intenção de que era para mandar educar, só que, na verdade, a gente era vítima do trabalho escravo infantil. Fazia tudo na casa com 11 anos: lavava, cozinhava, passava, tomava conta de duas crianças, fazia comida. Enfim, tem umas cicatrizes de queimadura, que eu me queimei nessa casa. E aí, eu fiquei mudando de casa em casa. Acho que morei em umas três casas na cidade de Bujaru”, relembra.
A busca por continuar os estudos ainda levou Ruth a outros deslocamentos. Aos 16 anos, ela chegou a Belém, onde novamente conciliou os estudos com o trabalho doméstico. Nos anos seguintes, sua trajetória foi atravessada também pela violência doméstica, o que a fez retornar à capital para recomeçar a vida.
“Depois, com 16 anos, eu venho aqui para Belém. Tomava conta de duas crianças. E aí, estudei até a oitava série e repeti a oitava série. Quando eu repito a oitava série aqui, minha mãe achou que eu não estava estudando: “Ah, não quer estudar, vou levar de volta”. E me leva de volta para a nossa comunidade. E aí, eu me envolvo com o pai da minha primeira filha e fui morar com ele. Tive um relacionamento muito ruim, violento. Eu apanhei e fugi com a Carla com um ano para cá. Em 97 eu fujo para cá. Fiquei vivendo aqui, fui morar com o pai dos meus outros filhos e fiquei de empregada doméstica até 2020, na pandemia, quando eu parei de trabalhar de empregada doméstica”, conta.
Em Belém, Ruth encontrou abrigo na casa de um irmão, em Belém, e voltou a trabalhar como empregada doméstica. Nos anos seguintes, iniciou um novo relacionamento e passou por diferentes moradias até conseguir comprar uma casa no bairro do Guamá, onde viveu com a família em condições precárias, sem acesso regular à água.
“A gente comprou uma casa lá no Guamá, sem água, tinha um contexto muito ruim, que a gente lavava a louça na ponte, assim, num tubo quebrado. […] Todo mundo ia pra lá lavar a louça, tomar banho, dar banho nos meninos”, relembra.
Anos depois, já com os estudos concluídos, Ruth vendeu a casa e, em 2009, se mudou com a família para Águas Lindas, onde vive até hoje. O terreno, próximo ao antigo lixão do Aurá, havia funcionado como espaço de triagem de resíduos. A casa ainda estava inacabada, mas representava uma nova chance de construir um lugar próprio para a família. O que antes era o destino de descarte, hoje é terreno onde Ruth semeia projetos e fortalece a sua comunidade.

As desigualdades que atravessam a mobilidade
A atuação de Ruth no cicloativismo começou em 2015, quando se tornou voluntária da rede Bike Anjo, iniciativa nacional que ajuda pessoas a aprender a pedalar. Durante as atividades, percebeu que, embora as mulheres fossem maioria entre quem procurava o projeto, mulheres negras e periféricas ainda eram pouco presentes.
Sua própria vivência como mulher negra e periférica passou a orientar a forma como enxergava essas ausências. Aos poucos, Ruth começou a compreender a mobilidade também a partir dos atravessamentos de raça, gênero e classe, observando não apenas quem tinha acesso à cidade, mas quem conseguia ocupar os espaços onde a mobilidade era discutida.
A experiência no Bike Anjo também deu origem, em 2017, ao Pedala Mana. O projeto surgiu a partir da percepção de que muitas mulheres procuravam a iniciativa para aprender a pedalar, mas, depois das primeiras experiências sobre duas rodas, ainda tinham medo de enfrentar o trânsito, devido a violência.
Um medo que Ruth conhecia. Quando se mudou para Águas Lindas, em 2009, ela deixou de usar a bicicleta para ir ao trabalho por receio de pedalar pela BR, ficando seis anos sem pedalar.
“Quando eu me envolvo no cicloativismo, eu entendo que essa BR só vai deixar de ser perigosa quando tiver demanda de mulheres lá, cobrando por melhores condições. Então, se eu não vou porque ela é perigosa, o poder público olha e fala assim: “Mas a gente vai melhorar para o carro porque não tem demanda de mulheres pedalando ali”. Saca? E aí a gente entendeu que essa demanda só vai acontecer quando a gente estiver lá pedalando, ainda que no perigo, e cobrando melhores condições. E aí é nesse contexto que eu perco o medo da BR e começo a incentivar outras mulheres”, relata.
Em 2017, Ruth entrou para o Coletivo Paráciclo, que desenvolve iniciativas voltadas ao fortalecimento e à expansão da mobilidade ativa. Inicialmente, atuou como coordenadora de mobilização e, posteriormente, assumiu a Diretoria Financeira, cargo que ocupou até sua saída do coletivo, no final de 2025.
No coletivo, idealizou diversos projetos que promoviam a mobilidade ativa, como o Perifa na Pista, iniciativa voltada a potencializar o uso da bicicleta por mulheres periféricas:
“Não era para incentivar, era para potencializar, porque elas são incentivadas pela necessidade, pela falta de transporte público de qualidade, pela falta de dinheiro, por uma série de fatores.”
A iniciativa recebeu reconhecimento nacional em 2024, sendo premiado no 13º Fórum Mundial da Bicicleta e 11º Bicicultura, realizados na Universidade de Brasília (UnB), no Distrito Federal.

Com a ampliação de sua atuação no cicloativismo, Ruth também passou a circular por outros espaços de discussão sobre mobilidade. Em 2018, participou, no Rio de Janeiro, do Bicicultura, encontro nacional dedicado à cultura da bicicleta; do Velo-city, evento internacional sobre ciclismo; e de um encontro feminista voltado às mulheres que pedalam. O contato com outras ativistas marcou um novo momento de sua atuação.
“Eu voltei dali muito potente, vi mulheres muito potentes ali. Então, eu venho de lá com uma garra enorme para lutar mais pela mobilidade”, relembra.
Ao mesmo tempo em que encontrou referências, Ruth também passou a questionar quem estava ocupando esses espaços. “Dentro desses grupos de mobilidade, de cicloativista, eu comecei também a perceber que essa galera era majoritariamente branca e classe média”, conta.
Os questionamentos de Ruth também chegaram ao âmbito institucional. Ao ocupar espaços de decisão dentro da União de Ciclistas do Brasil (UCB), participou de mudanças voltadas a ampliar a presença feminina na direção da entidade. Em 2022, a organização elegeu sua primeira diretoria formada integralmente por mulheres e alterou o estatuto para impedir que a direção fosse exclusivamente masculina.
“De 2018 pra cá, ainda que em passo de formiga, ainda que tenha muito pra mudar, a gente já fez a diferença, porque a gente já questiona, a gente já consegue ver mulheres negras.”, frisa.
A periferia se torna o centro do debate
“Tem uma galera lá no centro falando de uma galera que está aqui, que nem sabe que esse debate está acontecendo lá.” – Ruth Costa.
A percepção das desigualdades dentro do próprio cicloativismo fez Ruth começar a questionar não apenas quem participava dos debates sobre mobilidade, mas também onde eles aconteciam. Ao participar de encontros e fóruns, ela percebeu que as discussões permaneciam concentradas nas áreas centrais da cidade e pouco alcançavam quem vivia nas periferias – justamente a parcela da população mais afetada pela precariedade do transporte e pela falta de infraestrutura.
Para a ativista, as barreiras para essa participação eram várias: o preço do transporte, a falta de tempo e as próprias jornadas de trabalho dificultavam que moradores das periferias atravessassem a cidade para participar de debates que, muitas vezes, falavam sobre suas próprias realidades.
“Quem mais usa bicicleta não está aqui. Quem mais sofre com a falta de estrutura de mobilidade não está aqui neste evento.”, relembra.
Foi dessa inquietação que começou a ganhar forma a ideia de criar um espaço dentro de Águas Lindas. A experiência com o Circuito de Mobilidade, que levou pequenos fóruns para territórios periféricos como alternativa à realização de um grande encontro no centro de Belém, reforçou a necessidade de descentralizar não apenas o debate sobre mobilidade, mas também os espaços de formação e articulação. E assim nasceu o Espaço Cultural Ruth Costa.

Inaugurado em dezembro de 2024, o espaço, que também é sede da Yellow Zone Águas Lindas, foi pensado como um ponto de acolhimento e articulação comunitária, possibilitando a realização de rodas de conversa, oficinas, atividades culturais e outras ações formativas, para que a comunidade não precise se deslocar para outras áreas da cidade para acessar oportunidades, conhecimento e experiências que fortalecem a vida comunitária.

O Espaço Cultural Ruth Costa fica localizado na Rua João Batista, nº 98, Águas Lindas, Belém (PA).
Um espaço para novos caminhos
Para o futuro, Ruth espera ampliar a atuação do espaço para além das discussões sobre mobilidade. A ideia é que o local possa receber cursos, oficinas, rodas de conversa e formações em diferentes áreas, a partir das próprias demandas de quem vive no território. Algumas dessas experiências já começaram a acontecer, com atividades voltadas ao audiovisual, às políticas para mulheres e ao enfrentamento à violência digital.
“Eu acho que é a gente poder falar de nós, com nós mesmos, sabe? Que não seja algo sobre nós lá no centro sem a nossa participação. Se é sobre nós, tem que ser dentro do nosso território.”
É nesse caminho que ela projeta os próximos passos do Espaço Cultural Ruth Costa: como um lugar onde diferentes necessidades possam ser discutidas e onde conhecimento, formação e articulação não dependam do deslocamento até o centro da cidade.
“Que seja um espaço da periferia para a gente fazer vários tipos de formações, de várias áreas. Que a gente discuta a mobilidade, mas que a gente discuta todas as necessidades dessa população que está aqui carente e que não consegue ter acesso às coisas que acontecem no centro da cidade.”, finaliza.
Depois de uma trajetória marcada pela necessidade de deixar seus territórios para estudar, trabalhar e ocupar espaços de decisão, Ruth agora muda essa narrativa.
Redação:
Lírio Moraes | Na Cuia.
