Adaptação climática liderada localmente: Histórias de vida do projeto Marajó Resiliente

Projeto une conhecimentos tradicionais e tecnologia agroecológica para fortalecer comunidades quilombolas e agricultores familiares no Pará.

Belém, Julho de 2026 – No Marajó, o Projeto Marajó Resiliente, fortalece soluções de adaptação climática lideradas localmente, atuando de forma integrada nos municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari, potencializado resiliência climática por meio da promoção de diálogos entre diversos atores do território, e entre conhecimentos para responder às urgências do nosso tempo. Já foram apoiadas diretamente mais de 1.896 pessoas e 11.649 indiretamente e 436 hectares de SAFs implantados.


O projeto é realizado pela Fundación Avina e financiado pelo Fundo Verde do Clima (Green Climate Fund – GCF), implementado em parceria com o Instituto Belterra, Instituto Internacional do Brasil – IEB, CONEXSUS, junto à organizações territoriais como a Malungu e cooperativas e associações locais, buscando ampliar soluções de adaptação climática em resposta aos eventos extremos que têm afetado a região.


A iniciativa também conta com a participação direta de agricultoras e agricultores que atuam como multiplicadores de conhecimentos sobre os sistemas agroflorestais no território, assim como com o apoio de instituições locais. A ação dos multiplicadores possibilita o enraizamento do projeto no território, fortalece redes e expande o conhecimento gerado dentro da comunidade.

 

Roseli dos Santos Moreira, multiplicadora do projeto, moradora do quilombo Vila União, em Salvaterra. Foto: Lírio Moraes/Angola Comunicação.


Um dos exemplos da ação coletiva desses multiplicadores são os mutirões de plantio, prática ancestral, que tem sido resgatada pelas comunidades em ações conjuntas com o projeto. Para os agricultores os mutirões estão retomando as práticas cotidianas no cuidado no dia a dia, das famílias do Marajó.

 

Registro de um mutirão de implantação de SAF. Foto: Lírio Moraes/Angola Comunicação.


“Antigamente, quando meus avós plantavam, trabalhavam através de mutirão. Um vizinho ajudava o outro a plantar, a cercar. Isso tinha acabado há um tempo. E quando veio o projeto Marajó Resiliente, lembrei muito do passado, porque essa forma de trabalhar voltou.” Conta Maria Regina, agricultora da Vila Bacuri de Cachoeira do Arari.


A transformação é coletiva. Nos mutirões comunitários, agricultores e agricultoras se reúnem para trabalhar nos SAFs uns dos outros, reativando uma lógica ancestral de cooperação que o projeto fortalece, multiplicando a união entre a comunidade.

 

Samara Patrícia, agricultora familiar da comunidade de Maruacá, em Salvaterra, soma outra dimensão à importância dos SAFs, a alimentar. “Antes a gente se alimentava de comidas industrializadas e vejo que hoje conseguimos comer muitas coisas naturais, que vêm do nosso próprio quintal. Melhora a nossa saúde e a nossa forma de se alimentar”, conta.


No Marajó, as mudanças climáticas não são uma ameaça futura e sim uma realidade. O projeto Marajó Resiliente demonstra, na prática, que adaptação climática não é um conceito distante, mas sim uma construção coletiva presente nas ações dentro dos sistemas agroflorestais, no território e em cada mutirão de plantio realizado.


Os benefícios dos sistemas agroflorestais (SAFs) são diversos, e as comunidades do Marajó já entenderam isso há muito tempo. Em vez de monoculturas vulneráveis à seca e ao calor, cultivar açaí, cupuaçu, manga, hortaliças e outras espécies de forma integrada, garante colheita ao longo do ano inteiro e reduz a dependência de um único produto. Além de preservar o microclima local e tornar os sistemas agrícolas mais resilientes a eventos climáticos extremos, devido a regulação hídrica que melhora a qualidade do solo.


A escala do processo mostra a dimensão da aposta: durante a implementação da janela de plantio no ano de 2025/2026 foram trabalhados mais de 436,3 hectares em áreas agroflorestais, atendendo 401 famílias diretamente nos três municípios (211 SAFs liderados mulheres e 188 por homens), 91 em Cachoeira do Arari, 292 em Salvaterra, 18 em Soure e 179 agricultores quilombolas.


A adaptação climática não acontece apenas pela ação climática isolada. Essa é uma das apostas do projeto Marajó Resiliente, para que as mudanças durem, elas precisam envolver os diversos atores da sociedade: do território ao poder público. O projeto trabalha de forma simultânea com agricultoras e agricultores, comunidades quilombolas, prefeituras, secretarias municipais, ativadores de crédito rural e organizações da sociedade civil.


Um dos exemplos dessa ação é a Campanha “Marajó Unido Pelo Clima” que apoiou os municípios na elaboração de um Plano de 100 Dias, para a ativação da governança climática local. A iniciativa integra comitês de ação climática municipais para construir os planos de adaptação climática municipais. A campanha que visa mobilizar gestores públicos a criarem e colocarem em prática ações de adaptação climática no território, como forma de mitigar os efeitos de eventos climáticos extremos como as secas e as enchentes.


Pelo menos 50 gestores locais participaram de diálogos estruturados para orientar a construção dos Planos de Adaptação Local, já em andamento nos três municípios, além disso a campanha segue em execução no território, tendo envolvimento comunitário.


Outro marco do projeto foi alcançado em novembro de 2025, onde o primeiro contrato de crédito Pronaf B no território foi assinado por uma mulher. Realização do Fórum AtivaCred, que reuniu mais 400 pessoas e 40 organizações com o objetivo de fortalecer o acesso ao crédito rural e criar novas oportunidades para quem vive e produz no território.


Cada uma dessas escolhas, multiplicada por mais famílias espalhadas pelos municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari, é uma aposta concreta num futuro resiliente para o arquipélago amazônico.


Sobre o projeto Marajó Resiliente

O Projeto Marajó Resiliente é uma iniciativa dedicada a fortalecer a resiliência climática de agricultoras, agricultores familiares e comunidades tradicionais do arquipélago do Marajó, no Pará. Atuando nos municípios de Cachoeira do Arari, Salvaterra e Soure, o projeto busca fortalecer estratégias de adaptação climática a partir do território, aliando saberes locais, práticas agroecológicas e assistência técnica especializada.


A iniciativa é realizada pela Fundación Avina, em colaboração com o Instituto Belterra e o Instituto Conexsus, com a implementação do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), da World-Transforming Technologies, da Apó Socioambiental e da Angola Comunicação, nos processos de comunicação, e é financiado pelo Fundo Verde do Clima (Green Climate Fund – GCF) e Climate and Land Use Alliance (CLUA).


Sua base está na adaptação climática, implantação de sistemas agroflorestais, acesso a crédito rural, diversificação de renda, e fortalecimento da governança climática local. Ao longo de cinco anos, o projeto foi elaborado de forma participativa, envolvendo comunidades quilombolas, organizações locais e instâncias públicas. E sua execução prevê cinco anos de atuação em Cachoeira do Arari, Salvaterra e Soure, no arquipélago do Marajó.

 

Saiba mais em:

marajoresiliente.org

Instagram: @marajoresiliente

YouTube:

 

Redação:

Paulie Amaral, Na Cuia.

Foto de capa:

Lírio Moraes/Angola Comunicação.

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