Sem quadrilha nas ruas, Fogo no Rabo realiza festividade junina LGBTQIAPN+ em meio à crise na cultura em Belém

Com 26 anos de história, quadrilha realizou evento autônomo que reuniu artistas e coletivos e marcou também críticas à gestão da cultura no Pará.

Nesta quarta-feira, 24, é celebrado o dia de São João. Porém, as quadras juninas em Belém tem muito pouco a comemorar, graças a falta de investimento e de apoio, principalmente para iniciativas culturais das periferias. Devido a esse cenário de escassez de incentivos, a quadrilha junina Fogo no Rabo não saiu este ano. Porém, a organização conseguiu realizar a 5ª Festividade Junina LGBTQIAPN+, no último dia 13, que contou com o apoio coletivo de artistas, técnicos, brincantes, cozinheiras e apoiadores que acreditam que festejar também é um ato de resistência.

 

Crise na cultura afeta realização das quadrilhas juninas em Belém

O desmonte da cultura em Belém tem sido denunciado por diversos agentes culturais da cidade, que apontam a falta de investimentos consistentes, a precarização do trabalho artístico, os atrasos em pagamentos de trabalhadores da cultura e o enfraquecimento de políticas públicas voltadas às manifestações populares. Para grupos periféricos e independentes, como a Fogo no Rabo, a ausência de investimento não afeta apenas a realização de espetáculos: compromete a continuidade de processos de formação artística, a manutenção de espaços comunitários e a própria sobrevivência de iniciativas que atuam há décadas na valorização da cultura amazônica. A não saída da quadrilha neste ano tornou-se um reflexo desse cenário, em que coletivos historicamente importantes para a cena cultural de Belém precisam recorrer à mobilização comunitária para manter vivas suas atividades.

 

“Este ano, a quadrilha não saiu porque não houve apoio para os fazedores e fazedoras de cultura. Estamos falando de uma festa comunitária que movimenta a economia local e gera encontros aqui na periferia de Belém. Infelizmente, vivemos um momento em que acompanhamos denúncias e investigações sobre um escândalo de corrupção na gestão da cultura no Pará. Ao mesmo tempo em que faltam recursos para que artistas ocupem os espaços públicos e realizem suas atividades, questionamos o destino dessas verbas. O resultado disso, na prática, é que uma quadrilha histórica não está saindo às ruas, e não estamos falando da quadrilha de bandidos que está roubando a cultura.”, desabafou Flores Astrais, artista e produtora.

 

As dificuldades enfrentadas pela quadrilha Fogo no Rabo refletem um cenário que tem atingido diversos grupos juninos da capital paraense. Pelo segundo ano consecutivo, a organização da quadra junina promovida pela Prefeitura de Belém tem sido alvo de críticas por parte de brincantes, artistas e produtores culturais. Neste ano, as apresentações foram transferidas para a Praça Dorothy Stang, no bairro da Sacramenta, mas a estreia da programação foi marcada por denúncias relacionadas à infraestrutura do espaço.

 

Nas redes sociais, as reclamações que têm repercutido falam sobre as condições do tablado utilizado para as apresentações, considerado inadequado para a realização das coreografias e potencialmente perigoso para os dançarinos. Os grupos também apontaram a falta de proteção contra as chuvas, além de problemas envolvendo sonorização, acessibilidade e acomodação do público.

 

Há relatos também sobre ausência de estruturas básicas, como arquibancadas, pouca quantidade de banheiro e falta de sinalização e decoração característica dos festejos juninos. A situação se agravou com a falta de equipe de limpeza para manutenção do espaço entre as apresentações, obrigando integrantes das próprias quadrilhas a improvisar a higienização do tablado.

 

Na região norte, os festejos juninos são mais do que entretenimento. Quadrilhas, bois, pássaros e cordões representam espaços de preservação de memória, identidade coletiva, organização comunitária e são símbolos de resistência cultural. Defender e garantir condições dignas para a realização dessas manifestações também é preservar o patrimônio cultural da Amazônia.

 

5ª Festividade Junina LGBTQIAPN+ celebrou trajetória da quadrilha Fogo no Rabo com programação diversa

A programação, realizada no dia 13 de junho, na Baixada do Marco, iniciou às 19h com a exibição do primeiro jogo do Brasil na Copa 2026 – apelidado de “Copa do Fim do Mundo” pela organização – que foi narrado pelas apresentadoras Themonias Xyrley Tão, Shayra Brotero e Flores Astrais, que, em sua fala de abertura, deu enfoque nos problemas enfrentados pela falta de investimento na cultura e incentivou a resistência do movimento.

 

As Themonias Xyrley Tão, Shayra Brotero e Flores Astrais comandaram a “Copa do Fim do Mundo”, na transmissão do jogo Brasil x Marrocos. Foto: Tainá Barral.

 

“Está acontecendo algum tipo de escândalo de corrupção na cultura em Belém do Pará. Então, as quadrilhas de rua, os mestres e mestras de cultura, os lugares onde a cultura tinha que estar sendo fomentada para dar acesso, não tem. Futebol também é cultura, mas a quadrilha Fogo no Rabo, que deveria ser a nossa grande estrela da noite, infelizmente não vai poder sair por causa desses escândalos e descasos da cultura em Belém do Pará, mas elas vão resistir! Bora pra cima!”, declarou

 

Após a exibição do jogo, o público participou de brincadeiras de quadrilha conduzidas pela multiartista Shayra Brotero, coreógrafa da Fogo no Rabo desde 2022, além de uma performance de malabares de fogo realizada pela artista IDA. Na sequência, o evento contou com a apresentação do Boi Marronzinho e com uma performance de Kami.

 

A programação incluiu, ainda, as performances de Mister e Miss Fogo no Rabo, a apresentação da Quadrilha Sem Recalque e a performance da Miss Mirim Agbê. O encerramento ficou por conta da DJ Savannah.

 

O evento reuniu artistas, técnicos, brincantes e coletivos de cultura popular. Foto: Louzley Sol.
 
Documentário resgata a trajetória histórica da quadrilha

Um dos momentos mais importantes da noite foi a estreia do documentário “Transversatil: Umas histórias com Fogo no Rabo”. Realizado ao longo de sete anos, o filme narra os primeiros anos de trajetória da quadrilha — um registro inédito de décadas de luta, arte e transformação cultural.

 

O projeto, que recebeu apoio do Itaú Cultural e financiamento por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), tem roteiro assinado por Romário Alves (Roma Rio) e direção de Roma Rio e Luezley Sol. A equipe também reúne Luu Peixe, Igor Teixeira, Luezley Sol, Stela Cadente e Fabio Ramos nas câmeras; Luezley Sol e Roma-Rio na montagem; Rafael Café Sales e Renata Beckmann no som direto; Bea na trilha sonora; Neto Dias na colorização; e Luezley Sol na finalização.

 

Trajetórias que abriram caminhos na comunidade LGBTQIAPN+ são celebradas durante a festividade

Durante a programação, a Quadrilha Fogo no Rabo realizou a homenagem “Às que vieram antes”, dedicada às pessoas LGBTQIAPN+ com 50 anos ou mais de idade, que contribuíram para a construção de redes de acolhimento, resistência e defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+ em Belém. A iniciativa reconheceu lideranças comunitárias, artistas, ativistas e apoiadores que marcaram a trajetória da quadrilha e da comunidade ao longo das últimas décadas.

 

Renata Taylor foi homenageada por sua trajetória de mais de três décadas de atuação em defesa da população LGBTQIAPN+ na Amazônia. Reconhecida pelo trabalho de acolhimento e mobilização social, Renata participou de diversas iniciativas voltadas à promoção de direitos, cidadania e dignidade para pessoas LGBTQIAPN+, tornando-se uma referência histórica do movimento na região.

 

Jéssica Marajoara recebeu a homenagem por sua contribuição à luta pelos direitos da população trans e travesti na Amazônia. Sua atuação em defesa da representatividade, do respeito e da inclusão tem fortalecido espaços de acolhimento e visibilidade para pessoas LGBTQIAPN+, inspirando novas gerações de ativistas e lideranças comunitárias.

 

Jô, moradora histórica da Baixada do Marco, foi reconhecida por sua importância para a memória e a construção social do território. Considerada a primeira travesti da comunidade, sua trajetória é marcada pela resistência diante do preconceito e pela construção de vínculos de solidariedade e pertencimento que atravessam gerações.

 

Kameron Download foi homenageada por sua participação na construção da história da Fogo no Rabo desde seus primeiros anos. Integrante ativa da quadrilha, contribuiu para consolidar o grupo como um espaço de acolhimento, diversidade e convivência comunitária, sendo reconhecida por sua atuação, consciência política e apoio às novas gerações.

 

Pericles, uma das fundadoras da quadrilha, recebeu o reconhecimento por sua contribuição para a criação e consolidação da Fogo no Rabo ao longo de mais de duas décadas. Enfermeira, artista e referência da comunidade LGBTQIAPN+, ajudou a transformar o grupo em um espaço de cultura, afeto e pertencimento para diferentes gerações.

 

Erlon foi homenageado por sua trajetória artística ligada à decoração, ao carnaval e às manifestações culturais populares. Integrante da Fogo no Rabo, contribuiu ao longo dos anos com sua criatividade e trabalho na construção estética e simbólica das apresentações, tornando-se uma referência para a comunidade cultural local.

 

Gonzaga recebeu a homenagem por sua atuação como cabeleireiro, educador e formador profissional. Ao longo de sua trajetória, contribuiu para a formação de diversas pessoas na área da beleza, além de apoiar iniciativas comunitárias e culturais do bairro, incluindo a própria Fogo no Rabo, fortalecendo redes de autoestima, aprendizado e inclusão social.

 

Cultura, memória e resistência nas periferias

Mesmo diante das dificuldades relatadas por grupos juninos e das críticas à falta de investimento na cultura em Belém, a realização da 5ª Festividade Junina LGBTQIAPN+ da Fogo no Rabo reafirma o papel das iniciativas independentes na preservação e reinvenção das manifestações populares. Entre apresentações, homenagens e a exibição de um documentário que resgata sua trajetória, o evento evidenciou como a cultura segue sendo produzida a partir da mobilização coletiva, especialmente nas periferias, onde a continuidade das expressões artísticas depende, em grande medida, da organização comunitária. Ao reunir artistas, técnicos, brincantes e coletivos em uma programação construída de forma independente, o evento também expôs a centralidade da cultura periférica na formação da identidade cultural de Belém e da Amazônia.

 

Acompanhe a quadrilha Fogo no Rabo no Instagram: @fogonoraboquadrilha

 

Redação:

Lírio Moraes, Na Cuia.
Com informações da Quadriha Fogo no Rabo.

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