Mulheres negras periféricas estão no centro do debate do 3º encontro da formação em Mobilidade Antirracista, realizada em Belém

O evento propõe uma reflexão sobre como planejamento urbano, transporte público e desigualdades raciais afetam o acesso de mulheres negras a trabalho, saúde, educação e lazer.

Em seu 3º encontro, realizado no próximo sábado, 3, a formação “Mobilidade Antirracista – Rompendo Barreiras, Conectando Pessoas” aborda o tema “Gênero, raça e os deslocamentos das mulheres”, propondo um olhar sobre como esses dois marcadores sociais atravessam a nossa circulação cotidiana e influenciam nossos acessos à cidade e à direitos básicos, como educação, trabalho, saúde e lazer — especialmente para mulheres negras periféricas. A formação é realizada pelo Espaço Cultural Ruth Costa, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, e ainda está aberta para novos participantes. Inscrições via formulário do google.

 

O evento, que ocorre a partir das 14h no Espaço Cultural Ruth Costa, em Águas Lindas, visa conectar mobilidade, território e gênero, fortalecendo a compreensão crítica sobre como o planejamento urbano e os sistemas de transporte afetam diretamente o tempo, a renda, a segurança e a qualidade de vida de mulheres negras periféricas. O encontro pretende discutir os impactos da mobilidade urbana na rotina das destas mulheres, que convivem diariamente com longos deslocamentos, transporte insuficiente e insegurança nos trajetos.

 

O impacto do gênero nos deslocamentos cotidianos

A mobilidade urbana não é “neutra”. Homens e mulheres usam a cidade de formas distintas. Enquanto o planejamento tradicional foca no movimento casa-trabalho, as mulheres negras periféricas raramente fazem apenas um trajeto direto. São elas as principais responsáveis por levar os filhos na escola, ao médico, pela compra de mantimentos para casa — trajetos que na maioria dos casos são negligenciados pelo planejamento urbano. Além disso, o transporte público em Belém muitas vezes não está preparado para receber carrinhos de bebê, mães com crianças de colo ou mulheres carregando compras, tornando o trajeto fisicamente exaustivo.

 

Bandeira exposta no Espaço Cultural Ruth Costa. Foto: Lírio Moraes.

 

Somando-se a isso, essas mulheres ainda precisam conviver com o medo da violência — patrimonial e sexual — que dita o horário e as rotas. Em bairros onde a iluminação pública é precária e os pontos de ônibus são isolados, o deslocamento feminino é marcado por um estado de alerta constante. As alternativas para garantir agilidade e segurança no transporte, seriam gastar mais com passagens de ônibus, fazendo várias paradas ou com transporte alternativo (de aplicativo, táxi ou mototáxi), comprometendo uma fatia maior de renda. Quando o gênero não é considerado no planejamento urbano e nos sistemas de transporte, as mulheres negras periféricas seguem sendo negligenciadas e sobrecarregadas por estruturas de mobilidade ineficientes e excludentes.

 

Ao abordar o tema do terceiro encontro, Ruth Costa, anfitriã do espaço e organizadora da Formação, ressalta que as experiências de deslocamento não são as mesmas para todas as pessoas. Para ela, raça, gênero e território são fatores que determinam quem tem acesso à cidade e em quais condições esse acesso ocorre.

 

“Em Belém, a cor da pele define onde você mora e como você se move. A mulher negra periférica está no centro da pirâmide de vulnerabilidade. As mulheres negras ocupam majoritariamente as áreas de baixada e periferias mais distantes, onde o transporte é mais escasso e o tempo de espera é maior. A falta de transporte eficiente impede que essas mulheres acessem empregos ou serviços de saúde no centro da cidade, perpetuando um ciclo de exclusão econômica. Enquanto uma mulher branca em um bairro nobre pode ser vista como alguém que “circula” pela cidade, a mulher negra na periferia muitas vezes enfrenta a suspeição ou a invisibilidade total das políticas públicas de segurança e infraestrutura.”, pontua.

 

A anfitrião do espaço e organizadora do projeto, Ruth Costa. Foto: Lírio Moraes.

 

O terceiro encontro terá como convidadas Luana Silva Costa (participação remota) — ativista com trajetória nas lutas das juventudes, mulheres,
negritude, educação e comunicação popular; e Suane Barreirinhas — articuladora social, comunicadora e facilitadora com atuação voltada à participação popular, justiça climática, mobilização comunitária e incidência política na Amazônia.

 

Sobre a formação “Mobilidade Antirracista – Rompendo Barreiras, Conectando Pessoas”

O projeto iniciou no mês de abril, abordando a apresentação e conceituação do termo “Mobilidade Antirracista”. O encontro teve como convidadas Jô Pereira, diretora presidente da União de Ciclistas do Brasil (UCB), que participou de forma remota; Roberta Sodré, professora antirracista e militante do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA); e Dona Antônia, moradora de Águas Lindas, que compartilhou um pouco de sua vivência enquanto pessoa com deficiência (PCD) e as barreiras que enfrenta em seus deslocamentos.

 

O primeiro encontro reuniu moradores locais e ativistas pela mobilidade. Foto: Lírio Moraes.

 

O segundo encontro, ocorrido em maio, abordou a temática “Territórios e Baixadas – A Realidade de Belém”, que propôs uma análise sobre os dados de mobilidade urbana na cidade e sobre os impactos e o legado das obras realizadas para a COP-30, especialmente nas periferias. O encontro teve participações remotas da engenheira civil Ana Valéria Borges, mestre em Engenharia de Transportes pela COPPE/UFRJ, com mais de 20 anos de atuação no setor público; e Ricardo Neres Machado, economista e ativista que atua no campo da mobilidade, segurança viária e direito à cidade.

 

Baseada no livro “Mobilidade Antirracista” — que propõe uma análise da mobilidade urbana a partir das desigualdades raciais e territoriais no Brasil — a formação visa transformar a vivência cotidiana de quem mora na periferia em conhecimento teórico e político. Entre os principais objetivos estão: capacitar lideranças locais para identificar desigualdades no transporte e na infraestrutura urbana; produzir dados e narrativas a partir das periferias sobre como o racismo afeta o deslocamento; e fortalecer a incidência política, preparando os participantes para ocupar espaços de decisão e conselhos municipais.

 

O projeto tem duração de seis meses, com a realização de um encontro por mês, finalizando em setembro.

 

Programação do 3º encontro
  • 14h – Abertura e mística
    Recepção dos participantes.
    Mística: Momento de sensibilização.
  • 15h – Debate e roda de conversa: com o tema “Gênero, Raça e o deslocamento das mulheres”, a discussão tem o objetivo de focar na experiência das mulheres negras e periféricas no trânsito e o tempo perdido no deslocamento.
  • Convidada: Luana Costa (online). Mediação: Suane Barreirinhas
  • 16h – Pausa para o lanche
  • 16h15 – Leitura do livro “Mobilidade Antirracista”
  • 18h – Síntese e encerramento

 

Confira o calendário dos próximos encontros:
4º encontro: 18 de julho

Tema: Incidência Política e Direito à Cidade.
Objetivo: Orientar como participar de conselhos, audiências públicas e monitorar o orçamento público.


5º encontro: 15 de agosto

Tema: Comunicação e Narrativas Periféricas.
Objetivo: Como comunicar as pautas de mobilidade nas redes e na mídia oficial para gerar pressão política.



6º encontro: 12 de setembro

Encerramento da formação

Programação:

  • Entrega dos certificados de “Multiplicador de Mobilidade Antirracista”.
  • Produto Final: Apresentação da “Carta de Mobilidade das Periferias” construída pelos participantes.

 

Conheça Ruth Costa

Mulher negra, amazônida, periférica, quilombola, mãe e avó. Produtora cultural e anfitriã do Espaço Cultural Ruth Costa, é uma das idealizadoras do Projeto Pedala Mana e criadora do Perifa na Pista, iniciativa focada em potencializar o uso da bicicleta por mulheres em territórios periféricos e de baixa renda. Trabalha ativamente por uma mobilidade democrática e sustentável e por cidades mais justas e inclusivas para todas as pessoas.

 

Sobre o Espaço

Inaugurado em 2024, o Espaço Cultural Ruth Costa é, antes de tudo, uma casa — a casa da própria Ruth. Um lugar que durante muitos anos existiu apenas como sonho, alimentado entre desafios, lutas e persistência. Hoje, esse sonho se materializa como um espaço coletivo, aberto a outras pessoas do território, onde a vivência pessoal se transforma em construção comunitária.

 

O que antes era apenas um lar, tornou-se também ponto de encontro, cultura, aprendizado e fortalecimento da periferia. O espaço Ruth Costa também é a sede da Yellow Zone Águas Lindas, um dos territórios periféricos amazônicos que atua como pólo de mobilização, formação e incidência política voltados à justiça climática. Assim, o que nasceu como um lar transformou-se também em um ponto ativo de articulação comunitária na periferia de Belém.

 

Serviço

3º encontro da Formação: Mobilidade Antirracista – Rompendo Barreiras, Conectando Pessoas.
Inscrições: Via formulário online.
Data: 6 de junho (sábado), a partir das 14h.
Local: Espaço Cultural Ruth Costa – Rua João Batista, nº 98, Águas Lindas, Belém (PA).
Informações: @espacoculturalruthcosta (instagram).
Apoio: Fundação Rosa Luxemburgo.

 

Texto e foto de capa:

Lírio Moraes | Na Cuia.

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