Mestra Neya lança “Travessia”, single de carimbó como saudação às matas e homenagem a cultura de Icoaraci

Canção do projeto “Travessia – Carimbó de Encantaria” chega às plataformas de música e destaca saberes tradicionais, encantarias e a força da mulher de terreiro.

A cantora e compositora Mestra Neya lançará nas plataformas de música, no dia 1º de junho, o single “Travessia”, primeira música do Grupo de Carimbó Jangada Encantada e marco inicial de sua trajetória solo. Inspirada nos saberes ancestrais de Icoaraci, a canção estabelece uma conexão entre o carimbó, as matas amazônicas e a tradição dos mestres oleiros do Paracuri, território reconhecido pela produção das tradicionais cerâmicas artesanais. Com referências à cultura popular e às espiritualidades amazônicas, “Travessia” reafirma a música como espaço de memória, pertencimento e resistência cultural.

 

Como celebração à vida da Mestra e marco do projeto “Travessia – Carimbó de Encantaria”, a artista realiza um show de pré-lançamento no domingo, 31 de maio de 2026, no Ponto de Cultura Coisas de Negro, localizado na Av. Dr. Lopo de Castro, 1081, em Icoaraci. A apresentação contará com intérprete de Libras e reunirá elementos da cultura popular amazônica, do carimbó e das sonoridades ancestrais que atravessam a obra.

 

O projeto “Travessia – Carimbó de Encantaria” foi contemplado pelo edital Projeto de Criação – Patrimônio Imaterial, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). O apoio reforça a importância de iniciativas que valorizam manifestações culturais tradicionais da Amazônia, reconhecendo o carimbó não apenas como expressão artística, mas como patrimônio vivo, transmitido entre gerações por meio da música, da espiritualidade, do artesanato e da relação com o território de Icoaraci, em especial, a comunidade do Paracuri.


Com letra assinada por Edinéa Smith, conhecida pela comunidade carimbozeira como Mestra Neya das Maracas Encantadas. A canção tem como ponto de partida a expressão “Zimba”, elemento fundamental que conecta a música às raízes do batuque e do carimbó tradicional, carregando heranças da cultura africana presentes na construção sonora e simbólica da obra. Com forte inspiração nas matas e nos saberes ancestrais amazônicos, “Travessia” reúne influências do carimbó, do batuque de mata, do tambor de mina e dos sons da natureza para construir uma verdadeira saudação às matas e à cultura de Icoaraci, especialmente do território do Paracuri.


Na composição, Mestra Neya pede licença aos caboclos e encantados protetores das matas, como Anhangá e Jurupari, reverenciando as espiritualidades que guardam os territórios amazônicos. A música também homenageia os mestres e mestras de Icoaraci, os saberes ancestrais, a cerâmica marajoara, o artesanato do Paracuri e os modos de bem viver presentes no cotidiano da vila, como beber água de coco na orla enquanto se contempla o pôr do sol. “Travessia” traduz a alegria, o pertencimento e a força cultural de ser parte de Icoaraci, do carimbó e dessa herança amazônica marcada pelo axé.

 

“Eu trago a minha Zimba pra tudo ser diferente em Belém do meu Pará, no meio da nossa gente. Neya das maracas toca, sacode seu maracá acorda o velho Pajé e vumbora trabalhar. Na minha canoa vou atravessar vento forte e maresia não vão me atrapalhar (…) Eu já pedi licença a Anhangá e Jurupari pra cantar meu carimbó da Vila de Icoaraci (…) Minha terra é pai d’egua maninho eu vou te dizer, se quiser artesanato em Icoaraci vai ver, no Paracuri, a arte marajoara da vila de Icoaraci.” — Letra da Música por Mestra Neya.

 

Entre os nomes que integram o projeto está Mestre Marivaldo, oleiro de Icoaraci presente no mercado artesanal desde a década de 1970, Mestre Marivaldo integra a terceira geração de uma família de artesãos do Paracuri, em Icoaraci. Sua trajetória foi construída a partir dos ensinamentos dos pais, com quem teve contato direto com o fazer artesanal da olaria desde os 10 anos de idade. Ao longo dos anos, aprimorou técnicas e desenvolveu uma pesquisa própria voltada às cerâmicas arqueológicas da Amazônia, em 2017, ingressou no projeto “Replicando o Passado”, do Museu Paraense Emílio Goeldi, iniciativa que ampliou seu acesso a referências históricas e fortaleceu seu trabalho de reprodução das peças, respeitando traços, grafismos e características originais das culturas ancestrais amazônicas.

 

Integrantes do grupo Jangada Encantada. Foto: Caio de Jesus.

 

“A nossa história na cerâmica começa com a minha mãe. Antes mesmo da gente nascer, ela já trabalhava fazendo os desenhos e grafismos das peças. Depois meu pai também entrou nesse processo e eu fui aprendendo com os dois”, relembra. Segundo ele, os conhecimentos foram transmitidos de geração em geração, desde as técnicas de pintura até os processos de queima da cerâmica, fortalecendo a cultura oleira do Paracuri e mantendo vivos os saberes ancestrais do território.

 

A cerâmica do Paracuri atravessou diferentes fases ao longo dos anos, incluindo períodos de forte desvalorização econômica e social. Com a queda nas vendas, muitas famílias enfrentaram dificuldades financeiras e passaram a desencorajar os filhos a seguirem o ofício da cerâmica, diante da insegurança e da falta de perspectivas no setor. “Teve uma época em que muitas famílias que viviam da cerâmica praticamente não tinham o que comprar para comer. Por isso, muitos pais não queriam que os filhos fossem ceramistas”, relata.

 

Ele destaca, porém, que o cenário começou a mudar com a chegada de uma nova geração de artesãos, inclusive em sua família, com sua filha que utiliza estratégias mais contemporâneas de divulgação e comercialização. O uso das redes sociais, por exemplo, possibilitou que muitos artistas deixassem de depender de revendedores e passassem a vender diretamente para o consumidor final. “Hoje conseguimos escolher trabalhar diretamente com o cliente final. As redes sociais ajudaram muito nesse processo, principalmente para alcançar pessoas de fora”, afirma.

 

Ao posicionar o carimbó como linguagem de mobilização e pertencimento, o projeto reforça que a preservação da Amazônia passa também pela valorização das culturas e tradições que nascem e se desenvolvem em seus territórios. Nesse sentido, “Travessia” saúda a ancestralidade e as tradições por meio da musicalidade, propondo ao público uma escuta sensível sobre o presente e o futuro da região, lembrando que a defesa da floresta está profundamente ligada aos saberes, encantarias e práticas culturais de seus povos.

 

Como contrapartida social, o projeto realizou, na semana dos povos indígenas, a Vivência de Diálogo de Saberes: Maracas como Instrumento de Carimbó e de Transformação Social, conduzida por Mestra Neya e com a participação do Grupo de Carimbó Jangada Encantada. A atividade aconteceu na escola pública de Icoaraci, a EEEF São Pedro, localizada no Paracuri, e propôs uma vivência formativa sobre o papel das maracas — instrumento fundamental e sagrado no carimbó e na cultura de matriz africana e indígena — apresentando sua história, simbologia e uso na musicalidade amazônica.

 

A proposta é a aplicação da Lei 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” e da Lei nº 11.645/2008, que instituiu o ensino de História e Cultura Indígena nos currículos das redes de educação básica, aproximando estudantes da tradição cultural local de forma prática, gratuita e imersiva, fortalecendo o vínculo entre as novas gerações, e democratizando os debates climáticos a partir do Carimbó, os saberes preservados por mestres e mestras da cultura popular.

 

A iniciativa prevê ainda a produção de materiais audiovisuais e conteúdos digitais que ampliem a visibilidade do carimbó e da cerâmica do Paracuri e do artesanato marajoara como referência e inspiração para novos públicos.

 

Sobre Mestra Neya e a Jangada Encantada

Edinéa Smith, conhecida pela comunidade carimbozeira como Mestra Neya das Maracas Encantadas é mestra de Carimbó e fazedora cultural do Paracuri, periferia de Icoaraci. Fortalece em seu trabalho a cultura de matriz africana e indígena por meio do Batuque e do Carimbó com Axé. Representante e fundadora do grupo de Carimbó Jangada Encantada, onde movimenta, através de shows, oficinas, místicas e intervenções artísticas, o projeto “Carimbó de Encantaria- O Futuro é Ancestral!” em saudação aos caboclos e encantados da identidade e da cultura afroamazônida. Mestra Neya salvaguarda o Carimbó desde a década de 90 preservando a cultura em praças, escolas, feiras e espaços culturais, promovendo o acesso a cultura e ancestralidade como um direito fundamental para o bem viver.

 

Serviço

Show de pré-lançamento: domingo, 31 de maio de 2026.
Local: Ponto de Cultura Coisas de Negro, localizado na Av. Dr. Lopo de Castro, 1081 em Icoaraci.
Hora: 20h
Entrada: R$ 10,00 (dez reais) | Promocional: R$ 15 o casadinho (2 ingressos).
Ação solidária: arrecadação de alimentos não perecíveis.
Acessibilidade: intérprete de Libras

Redes sociais: @jangadaencantada

 

Texto:

Tainá Barral, Na Cuia.

Foto de capa:

Caio de Jesus, Na Cuia.

 

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