Espaço Cultural Ruth Costa lança formação em mobilidade antirracista voltada às periferias de Belém

A iniciativa propõe debater sobre direito à cidade a partir das desigualdades raciais e territoriais.

A mobilidade urbana nas cidades amazônicas é atravessada por desigualdades históricas de raça, classe e território. O direito à cidade não é distribuído de forma igualitária, sendo o acesso de pessoas negras e periféricas marcado por barreiras físicas e sociais. É a partir desse contexto que o Espaço Cultural Ruth Costa lança a formação “Mobilidade Antirracista – Rompendo Barreiras, Conectando Pessoas”. Com duração de seis meses, o primeiro encontro da formação será realizado no dia 18 de abril (sábado). As inscrições seguem abertas até o dia 15, via formulário online.

 

Baseada no livro “Mobilidade Antirracista” — que propõe uma análise da mobilidade urbana a partir das desigualdades raciais e territoriais no Brasil — a formação visa transformar a vivência cotidiana de quem mora na periferia em conhecimento teórico e político. Entre os principais objetivos estão: capacitar lideranças locais para identificar desigualdades no transporte e na infraestrutura urbana; produzir dados e narrativas a partir das periferias sobre como o racismo afeta o deslocamento; e fortalecer a incidência política, preparando os participantes para ocupar espaços de decisão e conselhos municipais.

 

Para Ruth Costa, produtora cultural e anfitriã do espaço, a mobilidade não é neutra e debater o tema sob uma ótica antirracista contribui para expor o racismo ambiental e institucional que define quem ocupa os espaços centrais.

 

“Belém esteve no centro das atenções globais devido à COP 30. No entanto, o foco era em infraestruturas para turistas e delegados. A proposta busca garantir que o debate sobre sustentabilidade e mobilidade ativa não ignore quem vive nos bairros periféricos. É uma forma de dizer: “Não existe justiça climática sem justiça racial e mobilidade digna para o povo da Amazônia”. A mobilidade não é neutra. Onde o ônibus não passa, onde a iluminação falha e onde a abordagem policial é mais frequente, são marcadores raciais. Debater isso sob uma ótica antirracista é expor o racismo ambiental e institucional que dita quem pode ocupar os espaços centrais e quem deve ficar confinado nas periferias”, frisa a produtora cultural.

 

Na avaliação da gestora do Espaço Cultural, a iniciativa pode tensionar políticas públicas e ampliar o debate sobre mobilidade na cidade. “Ao formar cidadãos tecnicamente preparados e politicamente conscientes, a formação pressiona a gestão pública a sair da “maquiagem urbana”. Ela força o debate local a considerar que a mobilidade é a porta de entrada para outros direitos (saúde, educação e lazer). Se o Estado quer falar de “cidades inteligentes”, terá que responder como essas cidades servirão à população negra que hoje gasta horas em transportes precários. O Espaço Cultural Ruth Costa é um espaço de produção, de saber e essa formação é pela dignidade e pelo protagonismo negro”, destaca Ruth.

 

Programação do 1º encontro

A formação, que conta com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo, será executada ao longo de seis meses, com um encontro presencial mensal no Espaço Cultural Ruth Costa, localizado na rua João Batista, nº 98 – Conjunto Jardim Nova Vida, bairro de Águas Lindas, em Belém. A abertura ocorrerá no dia 18 de abril (sábado), das 14h às 19h.

 

Confira o cronograma:
  • 14h – Abertura e mística

Recepção dos participantes;

Apresentação dos objetivos do encontro;

Distribuição do livro Mobilidade Antirracista.

Convidada: Jô Pereira.
  • 15h – Roda de conversa

Os debates terão início com a apresentação do conceito de direito à cidade; e racismo ambiental e mobilidade.

Convidada: Roberta Sodré.
Mediação: Ruth Costa.
  • 16h – Pausa para o lanche.
  • 16h15 – Leitura do livro “Mobilidade Antirracista”.
  • 18h – Exibição de documentário.

Filme: Tarifa Zero: Cidades em Disputa.

  • 18h30 – Encerramento.

 

Calendário de formações
2º encontro: 09 de maio
  • Tema: Territórios e Baixadas – A Realidade de Belém
  • Objetivo: Analisar os dados de mobilidade em Belém e o impacto das obras pós-COP 30 nas periferias.
 
3º encontro: 06 de junho
  • Tema: Gênero, Raça e a bicicleta como emancipação
  • Objetivo: Foco na experiência das mulheres negras e periféricas no trânsito e na economia da bicicleta.
 
4º encontro: 18 de julho
  • Tema: Incidência Política e Direito à Cidade.
  • Objetivo: Orientar como participar de conselhos, audiências públicas e monitorar o orçamento público.
 
5º encontro: 15 de agosto
  • Tema: Comunicação e Narrativas Periféricas.
  • Objetivo: Como comunicar as pautas de mobilidade nas redes e na mídia oficial para gerar pressão política.
 
6º encontro: 12 de setembro

Encerramento da formação
Programação:

  • Entrega dos certificados de “Multiplicador de Mobilidade Antirracista”.
  • Produto Final: Apresentação da “Carta de Mobilidade das Periferias” construída pelos participantes.
 
Conheça Ruth Costa

Mulher negra, amazônida, periférica, quilombola, mãe e avó. Produtora cultural e anfitriã do Espaço Cultural Ruth Costa, é uma das idealizadoras do Projeto Pedala Mana e criadora do Perifa na Pista, iniciativa focada em potencializar o uso da bicicleta por mulheres em territórios periféricos e de baixa renda. Trabalha ativamente por uma mobilidade democrática e sustentável e por cidades mais justas e inclusivas para todas as pessoas.

Ruth Costa – Produtora Cultural, ativista pela mobilidade ativa e anfitriã do espaço. Foto: Lírio Moraes.

 

Sobre o Espaço

Inaugurado em 2024, o Espaço Cultural Ruth Costa é, antes de tudo, uma casa — a casa da própria Ruth. Um lugar que durante muitos anos existiu apenas como sonho, alimentado entre desafios, lutas e persistência. Hoje, esse sonho se materializa como um espaço coletivo, aberto a outras pessoas do território, onde a vivência pessoal se transforma em construção comunitária.

 

O que antes era apenas um lar, tornou-se também ponto de encontro, cultura, aprendizado e fortalecimento da periferia. O espaço Ruth Costa também é a sede da Yellow Zone Águas Lindas, um dos territórios periféricos amazônicos que atua como pólo de mobilização, formação e incidência política voltados à justiça climática. Assim, o que nasceu como um lar transformou-se também em um ponto ativo de articulação comunitária na periferia de Belém.

 

Fachada do Espaço Cultural Ruth Costa. Foto: Acervo pessoal.
Serviço

Formação: Mobilidade Antirracista – Rompendo Barreiras, Conectando Pessoas.
Inscrições: até 15 de abril, via formulário online.
Abertura: 18 de abril (sábado), das 14h às 19h.
Local: Espaço Cultural Ruth Costa – Rua João Batista, nº 98, Águas Lindas, Belém (PA).
Vagas: limitadas.
Informações: @espacoculturalruthcosta (instagram).

Apoio: Fundação Rosa Luxemburgo.

 

Redação:

Lírio Moraes, Na Cuia.

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