Juventude e democracia: a participação política para além das eleições

Queda entre os mais jovens no eleitorado reacende o debate sobre representação, engajamento e o papel da juventude na manutenção da democracia.

No dia 12 de agosto é celebrado o Dia Internacional da Juventude – data instituída durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1999, para conscientizar a sociedade sobre as questões que afetam essa fase da vida e reconhecer o potencial dos jovens como agentes de mudança na sociedade.

Quando se fala sobre a participação política da juventude, o voto costuma aparecer como uma das principais formas de envolvimento. Mas, para jovens que atuam em coletivos, movimentos sociais e espaços de representação, a relação com a política vai muito além da urna. Ela também está presente na produção cultural, na comunicação, na organização coletiva e na busca por mudanças dentro das instituições sociais.

 

Apesar disso, os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam para uma redução da presença dos mais jovens no eleitorado. Nas Eleições 2026, o público apto a votar na faixa de 18 anos ou menos reúne 3,57 milhões de pessoas (equivalente a 2,25% do eleitorado nacional), o que representa uma queda de 14,5% em comparação com as Eleições Gerais de 2022, em que foram registrados 4,18 milhões de eleitores nessa faixa de idade. O cenário é especialmente relevante entre os adolescentes de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo.

 

De que maneira a juventude participa da democracia? Será que os jovens se sentem representados no campo político? Para ajudar a responder essas questões, a Na Cuia conversou com Regina Alice Franco, PresidenTRA da Associação de Discentes Trans e Travestis da UFPA (AdisTTrave), e Tabita Aynoã, co-fundadora da produtora Disguiados 091.

 

O desafio da participação eleitoral

Ao longo da história recente do Brasil, a juventude esteve presente em momentos decisivos da construção democrática do país. Das mobilizações pelas Diretas Já às manifestações de 2013 e às lutas por direitos e políticas de inclusão, jovens participaram de movimentos que levaram às ruas diferentes reivindicações e ajudaram a transformar o debate público.

 

Ao que se deve, então, a diminuição da participação juvenil no processo eleitoral? Na avaliação de Regina Alice, estudante de Ciências Sociais e PresidenTRA da AdisTTrave – UFPA, a descrença nos processos políticos é um dos fatores que podem afastar os jovens das eleições, mas também é necessário reconhecer que a participação política não se resume ao voto.

 

“Muitas das vezes a política institucional, as barbaridades que a gente vê dentro do Congresso Nacional, dentro da política institucional, principalmente nesse ano de eleição, faz com que a gente se desacredite da política. Faz com que a gente ache que esse espaço não é para nós e que estar dentro desse lugar não adianta nada, mas precisamos saber que muda muita coisa. Dentro da democracia, para além do voto, é fundamental que os jovens tenham uma participação política e se entendam enquanto agentes de transformação e que esse papel vai para além da institucionalidade, dos processos eleitorais. Ele se faz no dia a dia, nas ruas, nos atos, nas mobilizações, nos coletivos, nas organizações, nas associações, nos partidos políticos, em toda a forma de organização dessa massa, dessa classe, para que a gente consiga ter uma mudança real do paradigma social e do status quo. E a juventude tem esse papel de construir, de ir para as ruas, essa força de vontade de transformar a sociedade. E é por isso que a gente precisa cada vez mais mobilizar os nossos jovens, cada vez mais derrotar a onda de conservadorismo que a gente tem visto hoje nessa geração, porque entendemos que a juventude é um campo essencial para a transformação social.”, pontua a estudante.

 

Regina Alice Franco – estudante de Ciências Sociais e PresidenTRA da Associação de Discentes Trans e Travestis da UFPA (AdisTTrave).

 

Para a produtora cultural, Tabita Aynoã, a falta de representação política é outro fator que contribui muito para a falta de interesse deste público nas eleições, principalmente quando se fala de juventudes periféricas:

“Na prática, muitos jovens das periferias ainda não se sentem representados no debate político e eleitoral. Isso acontece porque a política institucional, historicamente, foi construída sem a presença dessas juventudes. Falta identificação, falta linguagem acessível e, principalmente, falta ver pessoas parecidas ocupando esses espaços. Quando o jovem não se enxerga ali, ele entende que aquele lugar não é para ele – e isso é um problema estrutural.”

 

Tabita Aynoã – Produtora Cultural e Co-fundadora da Disguiados 091.

 

A falta de identificação apontada por Tabita também ajuda a compreender as disputas em torno do engajamento político da juventude. Em entrevista concedida à Na Cuia, em junho, o jornalista Andreas Behn, Diretor do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e no Paraguai, chamou atenção para o fato de que os jovens se tornaram um dos principais campos de disputa no cenário político atual. Segundo ele, se décadas atrás havia uma percepção de que esse público estaria naturalmente mais próximo de posições progressistas, hoje a extrema-direita também tem conseguido dialogar com parte dessa juventude.

 

Para ele, esse movimento não passa apenas pela ideologia, mas também pela identificação. Ao se apresentar como algo “novo”, “cool” e “transgressor”, a extrema-direita consegue mobilizar elementos que têm apelo entre jovens em busca de identidade e pertencimento.

 

Da identificação à participação

Para Andreas Behn, a comunicação popular e os trabalhos de base juvenil são parte da resposta contra esse avanço autoritário. É preciso que o trabalho político com juventudes seja feito por outros jovens e a partir dos seus territórios – o que revela mais uma vez a importância da identificação nesse processo de engajamento.

 

Andreas Behn – Jornalista e Diretor do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo no Brasil e no Paraguai. Foto: Mathilde Missioneiro.

 

“Jovens entre 15 e 30 anos sabem muito bem o que interessa para eles e onde querem andar. Então, eu vejo esse desafio sobretudo para organizações de jovens, sejam políticas ou culturais.” — Andreas Behn.

 

Saiba mais: “A saída é pela esquerda”: como lideranças de 26 países debatem estratégias contra a extrema-direita.
 

Para Tabita Aynoã, além da identificação, é preciso garantir condições para que os jovens possam participar efetivamente dos espaços de decisão. Ela defende mudanças que ampliem a formação política e a participação da juventude, mas também uma abertura real desses espaços.

 

“Eu gostaria de ver mudanças que começassem pelo acesso e pela formação. Mais educação política nas escolas, mais incentivo à participação comunitária e, principalmente, abertura real dos espaços de decisão para jovens, não só como presença simbólica, mas com poder de fala e de decisão. Também é importante investir em comunicação que dialogue com essas juventudes, porque ninguém participa daquilo que não entende ou não se sente parte.”, frisa a produtora.

 

Para jovens trans e travestis, no entanto, a ocupação desses espaços ainda enfrenta obstáculos maiores como a transfobia e as dificuldades de acesso à educação e ao trabalho. Segundo Regina Alice, a participação política dessa juventude também é atravessada por um histórico de exclusão.

 

“Eu acho que o principal obstáculo que a gente enfrenta hoje enquanto juventude trans é tanto transfobia dentro da sociedade como um todo. Quando estamos falando de juventude trans, a gente está falando de uma população extremamente marginalizada, que passa por inúmeras violências constantemente, mas também entendendo que muitas das vezes o poder público, a universidade não quer de fato que nossos corpos estejam lá. Então, a gente sofre violência de múltiplos espaços.”, afirma.

 

Diante desse cenário, Regina defende que a participação não se limite à presença simbólica de pessoas trans e travestis nas instituições, mas que avance para a ocupação efetiva dos espaços de decisão.

 

“É fundamental que a gente tenha mais vozes ocupando esses espaços, ocupando câmaras de vereadores, parlamentos, mas não ocupando apenas para ocupar; ocupando para ter uma pessoa trans ali, para ser uma voz ativa, que vá ali propor projetos, que vá lutar contra políticas que possam afetar a nossa população. Por isso que é fundamental figuras como a deputada Erika Hilton, como Duda Salaberti. É fundamental que a gente ocupe esses espaços, mas não ocupar para ter uma pessoa trans lá, mas ocupar para disputar esse lugar e propor política para a nossa população.”

 

Organização política e conquista de direitos

Essa disputa por espaço também já produziu mudanças concretas dentro da universidade. Em 2026, a Universidade Federal do Pará (UFPA) aprovou uma política de reserva de vagas para pessoas trans, travestis e não binárias. Para Regina Alice, essa conquista representa uma ruptura com a exclusão histórica dessa população dos espaços de educação e produção de conhecimento.

 

“A conquista do PSE Trans representa o marco histórico de uma população que é historicamente excluída desses espaços, que é historicamente excluída da educação, que é historicamente excluída da universidade, da construção de saberes, da construção de conhecimento, que nós sempre fizemos e sempre construímos. A população trans e travesti sempre construiu conhecimento, seja através da arte, da cultura, através da linguagem, com o pajubá, através das nossas vivências e nossas experiências dentro dos espaços onde nós estamos.”

 

Além de garantir o ingresso ao ensino superior, Regina destaca que a política também pode ampliar as possibilidades de formação, inserção profissional e acesso a novas oportunidades para pessoas trans e travestis:

 

“Para mim, a conquista desse PSE nada mais é do que uma força ancestral, transcestral, que mostra que institucionalmente a gente tem o direito de ocupar esse espaço da universidade e muito para além, também é uma política de existência, é uma política de humanidade, de humanização dos nossos corpos, porque dentro da universidade é outra porta que se abrem para a gente, outras portas que se abrem de mercado de trabalho, outras oportunidades de ser e de existir para além da marginalidade se abrem.”

 

Política para além das urnas

A conquista de espaços institucionais é uma das formas de participação política, mas não é a única. Para Tabita, a própria experiência da juventude periférica mostra que a política também está presente em ações cotidianas, muitas vezes sem ser reconhecida como tal.

 

“Muitas histórias que registrei pelo Disguiados me mostraram que a juventude periférica já faz política, mesmo sem nomear assim. Está na organização de um evento cultural, na defesa do território, na criação de coletivos. Isso mudou minha forma de enxergar participação política: ela não começa na instituição, ela começa na vida. E reconhecer isso é fundamental para fortalecer essas juventudes como protagonistas.”, frisa a produtora cultural.

 

Se os números do eleitorado mostram uma redução na quantidade de jovens de até 18 anos habilitados a votar em 2026, as experiências de Tabita e Regina apontam para uma participação política que não pode ser medida apenas pela presença nas urnas. Nas periferias, universidades, coletivos e movimentos sociais, jovens também se organizam, constroem narrativas, reivindicam direitos e disputam os espaços onde decisões são tomadas.

 

Registro do Sarau Curupira, evento com foco no debate sobre mudanças climáticas, realizado no Dia Internacional do Meio Ambiente, em 2023. Foto: Lírio Moraes.

 

Reconhecer essas diferentes formas de participação não reduz a importância do voto. Ao contrário, reforça o desafio de aproximar essa participação cotidiana dos processos eleitorais e garantir que os jovens também se reconheçam como parte deles. Entre a descrença nas instituições e a falta de representação, a comunicação, a formação política e a abertura de espaços de decisão aparecem como caminhos para ampliar esse envolvimento.

 

Para Regina, reconhecer a dimensão política dessas diferentes formas de atuação é também lembrar que direitos conquistados por grupos historicamente marginalizados são resultado de mobilização: “E tudo que a gente conquistou de direitos para a juventude, para a população trans, LGBT, população negra, indígena, para as mulheres, todos esses direitos foram através de muita luta e foram através de participação política. Eles não foram nos dados de graça.”

 

Redação e foto de capa:

Lírio Moraes | Na Cuia

Revisão:

Tainá Barral | Na Cuia

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