Benguí ganha museu de graffiti a céu aberto com inauguração no Festival Bengola em Cores
MUBENCO reúne sete murais permanentes no Conjunto Xavante e será apresentado ao público com programação gratuita no domingo (7).
Sete murais assinados por grafiteiros do Pará e do Maranhão passam a integrar a paisagem do bairro do Benguí, em Belém, a partir deste domingo (7), com a inauguração do MUBENCO – Museu Bengola em Cores de Graffiti. As obras estão distribuídas ao longo do Conjunto Xavante I, II e III e formam uma galeria permanente de arte urbana a céu aberto, criada para aproximar a arte contemporânea das periferias, valorizar talentos do Norte Nordeste do país e estimular o turismo artístico de base comunitária.
A inauguração integra a programação do Festival Bengola em Cores – Traços Cabanos, que ocupará a Praça Nossa Senhora das Vitórias, com entrada gratuita. A partir das 15h, o público poderá acompanhar feira criativa, apresentações culturais, batalha de BOMB e sarau. À noite, a programação segue com shows do DJ Daniel Moraes, Bruna BG e Lima Neto.
Nesta primeira etapa, o MUBENCO reúne obras dos grafiteiros NSW, Negônica, Larissx, Mamacyta, Catatal, Mina Ribeirinha e WBS. Cada um assina um mural, com diferentes linguagens do graffiti, incluindo letras, personagens, símbolos, referências ancestrais, elementos do cotidiano periférico e narrativas ligadas à memória, ao território e à cultura.

O museu nasce com a proposta de ser um espaço permanente de visitação ao longo do ano, fortalecendo a economia criativa do bairro, incentivando novas oportunidades culturais e profissionais para moradores da região e consolidando o Benguí como território de criação artística. A ideia é que, a cada ano, o festival realize uma nova edição, com produção de novas obras artísticas e programação cultural aberta ao público.
O tema desta edição conecta a memória da Cabanagem, revolta popular e social do Pará, às lutas populares dos moradores do Benguí e às expressões contemporâneas do hip-hop.
Museu vivo inspirado em experiências de arte urbana no Brasil
O MUBENCO foi inspirado em iniciativas de museus de arte urbana já existentes no Brasil, como o M.U.S.A.S., na Gamboa, em Salvador, que une exposições, arte pública e ações com a comunidade. A partir dessas referências, o coletivo Tinta Preta Produções passou a pensar o Benguí como um território de arte permanente, com murais, encontros e atividades culturais ao longo do ano.
O espaço também é resultado da trajetória do Bengola em Cores, projeto realizado desde 2018 pelo coletivo no bairro, ocupando espaços públicos com graffiti, ações educativas e programação cultural. Agora, essa atuação se consolida a abertura do museu.
Para a produtora cultural, arte-educadora, grafiteira e uma das organizadoras do projeto, Mina Ribeirinha, o MUBENCO parte da ideia de que o acesso à arte precisa ser descentralizado e vivido também nos territórios periféricos.
“Acreditamos que descentralizar o acesso à arte é uma das principais motivações da nossa ação. Queremos criar experiências, principalmente para jovens e crianças, de contato com o fazer artístico pensado e direcionado para a periferia”, afirma.
Segundo Mina, o projeto também busca afirmar o bairro como território de criação, memória e produção artística.
“O Benguí é um grande berço de artistas e uma comunidade que abraça a arte. A criação do museu parte dessa base comunitária como inspiração e como público principal”, destaca.
Além da produção dos murais, o processo de construção do museu contou com ações formativas, rodas de conversa e atividades educativas. Grafiteiros convidados participaram de workshops sobre técnicas de graffiti em escolas da região, aproximando estudantes e comunidade dos processos de criação da arte urbana.

Com técnicas como wild style, marcado por letras complexas, entrelaçadas e de forte impacto visual, e BOMB, linguagem do graffiti baseada em letras arredondadas, rápidas e expressivas, as obras apresentam narrativas ligadas ao território, às trajetórias dos grafiteiros e às referências urbanas.
Para Mina Ribeirinha, a arte urbana permite que áreas antes invisibilizadas ou pouco utilizadas se tornem pontos de encontro, contemplação e diálogo. “O graffiti transforma espaços abandonados ou inutilizados em obras de arte públicas, que podem ser apreciadas 24 horas por dia. Isso cria referências positivas para jovens e crianças e amplia o entendimento sobre o que é arte”, afirma.
O projeto conta com fomento da Política Nacional Aldir Blanc, por meio do Edital de Chamamento Público nº 005/2025 – Fomento à Criação: Cultura Urbana e Periférica, do Ministério da Cultura e Governo Federal.
Grafiteiros da 1ª edição unem letras, ancestralidade, memória urbana e cultura hip-hop
A primeira edição do MUBENCO reúne grafiteiros com diferentes estilos, técnicas e pesquisas visuais. Espalhados pelo Conjunto Xavante, os sete murais criam um percurso artístico que dialoga com a memória periférica, a ancestralidade, a cultura hip-hop e as vivências do território.
Natural de São Luís, no Maranhão, NSW é reconhecido por um estilo próprio no universo das letras em 3D e do wild style. O grafiteiro desenvolve uma pesquisa baseada em volumes, sombras e profundidade, trazendo o tridimensional como linguagem central. Seu processo inclui a criação manual de tonalidades e cuidado minucioso em cada etapa da obra.
Também do Maranhão, Negônica desenvolve trabalhos voltados à valorização da beleza e da representatividade de mulheres negras, além de atuar como ativista do movimento hip-hop. No MUBENCO, sua obra é marcada por uma pesquisa sobre ancestralidade e africanidade, com destaque para questões ligadas às mulheres negras que habitam territórios periféricos e quilombolas.
Também do Maranhão, Negônica desenvolve trabalhos voltados à valorização da beleza e da representatividade de mulheres negras, além de atuar como ativista do movimento hip-hop. No MUBENCO, sua obra é marcada por uma pesquisa sobre ancestralidade e africanidade, com destaque para questões ligadas às mulheres negras que habitam territórios periféricos e quilombolas.
Moradora do Benguí, Mamacyta apresenta uma obra marcada pela pesquisa sobre a figura da Vênus de Willendorf, estatueta do período paleolítico associada a debates sobre antigas civilizações e representações do feminino. Na proposta da grafiteira, a figura se une a elementos afrodiaspóricos e referências de matriz africana, como as espadas de Iansã, também conhecidas como espada de Santa Bárbara, além de símbolos Adinkra, criados pelos povos Akan, de Gana e da Costa do Marfim. A composição articula signos ligados ao matriarcado, à ancestralidade e à permanência de saberes negros.
Catatal, grafiteiro emergente da cena underground de Belém, conhecido pela presença constante de sua obra em diferentes bairros da cidade, leva para o muro letras, símbolos, formas e elementos que atravessam a memória visual urbana da capital paraense. Em sua composição, as letras, que remetem à origem do graffiti, se misturam a referências da rua, da cultura de Belém, da história do Pará e do cotidiano periférico. A obra estabelece conexões entre vivência urbana, pertencimento, luta popular e direito à cidade.
Mina Ribeirinha, também moradora do Benguí, é empreendedora na Tinta Preta Produções e na Tinta Preta Grife, militante da cultura hip-hop e integrante dos coletivos Hip-Hop Pai D’Égua e Pretas Paridas da Amazônia. Sua obra dialoga com o afrofuturismo, o conceito de Sankofa e elementos de matriz africana. A grafiteira já participou de salões nacionais de arte, da Bienal das Amazônias e da mostra Dos Brasis.
Na inauguração, Mina apresenta uma obra em homenagem a Maria Luísa, mulher negra, militante e empreendedora que, em 2015, iniciou a produção de camisas bordadas para arrecadar recursos e levar mulheres à Marcha das Mulheres Negras. A proposta destaca o bordado como fazer artístico, ancestral, cultural e político, além de apresentar uma experiência sensorial, com elementos táteis que poderão ser tocados pelo público, permitindo que pessoas com baixa visão acessem a obra e conheçam a história retratada por meio da textura e do relevo.
WBS, grafiteiro maranhense radicado em Belém, participa desde a adolescência do movimento hip-hop de São Luís. Com domínio de diferentes estilos de letras, especialmente o wild style, desenvolve obras com elementos abstratos, cores vibrantes e forte movimento visual. No MUBENCO, o artista trabalha letras do alfabeto em destaque ao nome da Cabanagem.
Programação reúne cultura popular, sarau, reggae, rap e brega
Além da inauguração dos murais, o festival terá uma programação cultural gratuita ao longo da tarde e da noite. As atividades começam às 16h, com apresentação do Grupo Paranativo, coletivo fundado em 1991 no bairro do Benguí e reconhecido pela atuação na valorização das manifestações culturais paraenses, com trabalhos ligados à cultura popular, ao teatro, à dança e às raízes afro-indígenas e amazônidas.
Às 17h, a programação segue com a Batalha de BOMB, disputa entre grafiteiros que aproxima o público do processo criativo do graffiti em tempo real. A seleção dos participantes será feita por meio de formulário online, divulgado nas redes sociais do projeto, e reunirá oito grafiteiros para competir diante do público.
Na dinâmica, cada participante terá dois minutos para desenvolver sua letra, mostrar domínio técnico e imprimir sua identidade visual no traço. A proposta é aproximar o público do processo criativo do graffiti em tempo real, mostrando como velocidade, estilo e presença artística se encontram nessa modalidade.
Em seguida, às 18h, o Sarau em Movimento ocupa a praça com literatura, poesia, teatro, cultura afro, hip-hop e musicalidade. Formado por artistas periféricos, o movimento desenvolve ações de arte e educação em comunidades, favelas e periferias do Pará e da Região Metropolitana de Belém.
A partir das 19h, a programação musical será aberta pelo DJ Daniel Moraes, colecionador, selecta DJ e ativista do movimento reggae em Belém. Atuante desde os anos 1990, ele é um dos fundadores da AMOR – Associação de Reggae de Belém, e tem trajetória ligada à valorização do reggae nacional, das rádios comunitárias e da música como ferramenta de enfrentamento ao racismo e a outras formas de opressão.
Às 20h, o palco recebe Bruna BG, rapper, cantora, compositora e produtora cultural marajoara de Breves, no Pará. Com trajetória iniciada em 2007, a artista constrói uma obra marcada pelo rap, pela ancestralidade, pela resistência e pelas vivências periféricas, com passagens por palcos como Theatro da Paz, Teatro Amazonas e festivais como Se Rasgum, PSICA e AFROPUNK.
Encerrando a noite, às 21h, Lima Neto leva ao público o brega retrô e o brega marcante. Maranhense radicado no Pará e atualmente morador do Benguí, o cantor tem mais de 30 anos de trajetória na música e ficou conhecido como “A Voz do Amor”, tornando-se um dos nomes marcantes da cena popular paraense entre os anos 1990 e 2000.
Programação
15h às 20h — Feira Criativa
16h — Grupo Paranativo
17h — Batalha de BOMB
18h — Sarau em Movimento
19h — DJ Daniel Moraes
20h — Bruna BG
21h — Lima Neto
SERVIÇO:
Inauguração do MUBENCO – Museu Bengola em Cores de Graffiti
Festival Bengola em Cores – Traços Cabanos
Data: 7 de junho (domingo)
Local: Praça Nossa Senhora das Vitórias, bairro do Benguí, Belém
Entrada: gratuita
Texto e fotos:
Divulgação.