Fé, ancestralidade e resistência: Mãe de santo travesti celebra obrigação de 7 anos no Tambor de Mina
Após quase 30 anos de caminhada espiritual, Mãe Rosinha celebra rito fundamental da tradição afro-amazônica e reafirma o terreiro como espaço de acolhimento e resistência para pessoas LGBT+.
Uma conquista espiritual e ancestral
O som dos tambores ecoa como um chamado antigo, atravessando gerações. No centro da roda, entre rezas, cantos e gestos herdados da ancestralidade, Mãe Rosinha celebra um dos momentos mais importantes de sua caminhada espiritual: o cumprimento da obrigação de 7 anos no Tambor de Mina.
Aos 43 anos e após quase três décadas dedicadas à espiritualidade afro-amazônica, a sacerdotisa vive um marco que simboliza disciplina, compromisso e continuidade dentro da religião. Mas, para ela, essa conquista carrega também outro significado: resistência.
Travesti e mãe de santo, Mãe Rosinha construiu sua trajetória enfrentando preconceitos, violências e desafios dentro e fora da religião. Ainda assim, permaneceu firme na fé e na missão espiritual que abraçou desde jovem.
Hoje, ao cumprir a obrigação que marca uma nova etapa dentro da hierarquia religiosa, ela celebra não apenas uma conquista pessoal, mas também a permanência de uma tradição ancestral e a construção de um espaço de acolhimento para muitas outras pessoas.

O significado da obrigação de 7 anos
Na tradição do Tambor de Mina, cumprir a obrigação de 7 anos representa um marco na caminhada espiritual. O rito reafirma o compromisso com as entidades, com os ancestrais e com a continuidade da religião. Com o encerramento desse ciclo, Mãe Rosinha passa a assumir o cargo de Voodun Arronjaí, aprofundando ainda mais sua responsabilidade dentro da hierarquia religiosa. Mais do que um ritual, trata-se de um momento de reafirmação da disciplina espiritual e do pertencimento à família de santo.
“Cumprir a obrigação é obediência, é respeito, é hierarquia. É fazer parte de uma família espiritual.”
A etapa também amplia responsabilidades dentro da casa de santo e fortalece o papel de liderança espiritual.

Fé construída em quase três décadas
A relação de Mãe Rosinha com a espiritualidade começou ainda muito jovem. Desde então, sua vida tem sido marcada pela dedicação ao cuidado espiritual e à preservação dos saberes da tradição afroreligiosa. Ao longo dessa caminhada, ela enfrentou desafios marcados por preconceito e discriminação, mas nunca abandonou sua fé.
“O maior desafio foi o preconceito. Foram lutas e lutas, mas o que resume tudo é a resistência: enfrentar e não desistir.”
Durante esses anos, viveu momentos difíceis, incluindo episódios de violência e exclusão. Ainda assim, manteve firme sua missão espiritual. Para ela, permanecer viva e cumprir suas obrigações espirituais representa também um ato de resistência.
Fé que também é resistência
A conquista de Mãe Rosinha ultrapassa o campo da espiritualidade. Em um país que ainda lidera os índices de violência contra pessoas trans no mundo, sua permanência dentro da religião e o cumprimento da obrigação de 7 anos no Tambor de Mina também se tornam um gesto de resistência.
Ser travesti, mãe de santo e liderança espiritual é, muitas vezes, enfrentar múltiplas formas de preconceito dentro e fora da religião. Ao seguir firme em sua fé e na condução de sua casa de santo, Mãe Rosinha amplia caminhos para que outras pessoas LGBT+ também possam ocupar espaços de espiritualidade, liderança e ancestralidade.
Sua trajetória mostra que tradição e diversidade não são opostas, elas caminham juntas na construção de comunidades mais acolhedoras e na preservação das religiões de matriz africana.
Um terreiro que acolhe e protege
Além da dimensão espiritual, o terreiro de Mãe Rosinha cumpre uma função social importante dentro da comunidade. Ao longo dos anos, o espaço se tornou um lugar de acolhimento para muitas pessoas que enfrentam exclusão social, especialmente pessoas LGBT+, em particular mulheres e homens trans.
“Minha casa agrega muitas mulheres trans, homens trans e vários tipos de pessoas. É um espaço de acolhimento e resistência.”
Muitas dessas pessoas chegam ao terreiro carregando histórias marcadas por violência ou abandono familiar. No espaço religioso, encontram apoio, cuidado coletivo e pertencimento. “São pessoas guerreiras que já passaram por muitas situações e hoje caminham junto comigo.”
Assim, o terreiro se consolida como um espaço de espiritualidade, proteção e reconstrução de trajetórias.
Um novo ciclo espiritual
Ao cumprir a obrigação de 7 anos, Mãe Rosinha inicia um novo ciclo dentro da sua trajetória religiosa. Entre seus objetivos está continuar fortalecendo sua casa de santo e ajudar na formação de novas lideranças dentro da religião.
“Eu precisava chegar a uma hierarquia onde pudesse fazer outras cabeças também, ajudar outras mulheres trans e homens trans dentro da religião.”
Para ela, esse momento representa não um ponto final, mas o início de uma nova etapa: “É uma realização muito grande. Um dever cumprido. Mas ainda tem muitas coisas pela frente.”
Cercada por sua família de santo, pela ancestralidade e pelas pessoas que caminham ao seu lado, Mãe Rosinha reafirma que sua história é feita de fé, mas também de coragem. Em cada toque de tambor, em cada reza e em cada pessoa acolhida em seu terreiro, ela segue construindo um caminho onde espiritualidade, dignidade e resistência caminham juntas. E enquanto os tambores continuarem a ecoar, sua trajetória lembrará que existir, resistir e celebrar a ancestralidade também é uma forma de manter viva a história de um povo.

Mãe Rosinha
Mãe Rosinha é uma liderança religiosa do Tambor de Mina com quase 30 anos de atuação na afroreligiosidade. Travesti e sacerdotisa, conduz sua casa de santo como um espaço de espiritualidade, acolhimento e cuidado comunitário.
Ao longo de sua trajetória, tornou-se referência para filhos e filhas de santo e para a comunidade afroreligiosa local, especialmente pelo compromisso com a preservação das tradições ancestrais e pelo acolhimento de pessoas LGBT+ em situação de vulnerabilidade.

Tambor de Mina
O Tambor de Mina é uma religião de matriz africana com forte presença na região amazônica, especialmente no Maranhão e no Pará. A tradição reúne influências africanas, indígenas e afro-brasileiras, preservando rituais, cantos, danças e saberes transmitidos de geração em geração.
Nos terreiros de Tambor de Mina, a espiritualidade se expressa por meio do culto às entidades espirituais, aos ancestrais e às forças da natureza, sempre guiada por uma estrutura de respeito à hierarquia religiosa e aos ensinamentos das casas tradicionais.
As chamadas obrigações são rituais fundamentais dentro da religião e marcam etapas importantes da caminhada espiritual das pessoas iniciadas.
Entre essas etapas, a obrigação de 7 anos representa um momento de consolidação da trajetória espiritual dentro da tradição.
Redação:
Matheus Botelho, Na Cuia
Fotos:
Lírio Moraes, Na Cuia.